Sexta-feira, 14 de Novembro de 2008

Pelo direito a uma família

 Pelo direito a uma família

 

 

A campanha "Pelo direito a uma família" vai estar no Colombo este fim de semana e no norte shopping no Domingo, venha visitar-nos.

 

Jorge Soares

publicado por Jorge Soares às 19:54
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Sábado, 25 de Outubro de 2008

Desfazendo mitos

Crianças, adopção

 

Existem em Portugal uma serie de mitos relacionados com a adopção, sinto isso cada vez que falo com alguém sobre o assunto, cada vez que recebo um mail de alguém e mesmo de muitos dos comentários que me deixam aqui ou no nos adoptamos, o mais incrível é que mesmo muitas das pessoas que passam pelo processo de avaliação continuam a acreditar nesses mitos.... e a alimentá-los.

 
No outro dia recebi um mail de uns alunos de uma escola secundária do Porto a pedir ajuda para um trabalho sobre adopção, após uma troca de mails sobre a minha disponibilidade para os ajudar, enviaram-me uma serie de perguntas que eu tentei responder o melhor que sabia. A maior parte dessas perguntas reflecte isso mesmo, os mitos, aquilo que as pessoas acham sobre a adopção e os processos de adopção e que não tem nada a ver com a realidade. 
 
Eu não gosto de posts largos e o tema os mitos da adopção em Portugal  dá pano para muitas mangas, pelo que o assunto será tratado em vários posts, vamos lá à primeira pergunta:
 
1 - Porquê que há tantas crianças para adoptar?
 
Na verdade não há muitas crianças para adoptar, há poucas, durante o ano de 2007 foram adoptadas em Portugal pouco mais de 500 crianças, o numero de crianças em condição de ser adoptada anda à volta disto, 500 crianças por ano. Existem em Portugal mais de 11000 crianças em instituições, mas estas crianças não são para adopção, uma criança só vai para adopção quando o seu projecto de vida é definido para isso, e isto só acontece quando a família ou família alargada (avós, primos, tios) passa mais de seis meses sem aparecer na instituição ou mostrar interesse pela criança.
 
Reparem bem, basta que alguém faça um telefonema para a instituição cada seis meses para que a criança passe a vida inteira sem uma família. A ideia de que existem muitas crianças para adoptar é errada. Na verdade existem muitos mais candidatos, mais  de 3000, que crianças.
 
O principal motivo para que as pessoas tenham que esperar anos até poderem ter um filho, é porque na realidade não há crianças para adoptar, isso e o facto de 90% dos candidatos quererem crianças brancas até três anos de idade. Também é verdade que existem algumas crianças que estão em condições de serem adoptadas e não há candidatos para elas, principalmente quando se trata de dois ou mais irmãos e de crianças com mais de 7 anos, mas são uma pequena minoria.
 
Post Publicado inicialmente no blog O que é o jantar
Jorge
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publicado por Missão Criança às 22:59
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Domingo, 19 de Outubro de 2008

A espera:Oficialmente....à espera!

Adopção de crianças

 

Hoje foi finalmente o dia da primeira entrevista, na altura achamos um pouco estranho que em Julho marcassem a entrevista para Outubro,  agora não parece assim tão estranho, desta vez tinham feito mesmo o trabalho de casa, a psicóloga é a mesma do primeiro processo e lembrasse muito bem de nós. Para nosso espanto despacharam hoje todo o processo, as 3 ou 4 entrevistas habituais, ficaram resumidas a esta, duas horas de conversa franca e agradável encerraram o assunto. Teremos que esperar que chegue o bendito certificado de aprovação, mas segundo elas já estamos na lista....resta portanto esperar que algures apareça a nossa menina.

 
Evidentemente não vou contar aqui tudo o que se falou, na realidade falou-se mais de adopção, de candidatos e de crianças, que de nós e do nosso processo. Ficamos a saber que para as nossas condições o tempo de espera poderá ir até dois anos, evidentemente existem muitíssimos candidatos à nossa frente, só que segundo elas, 95% desses candidatos querem exclusivamente crianças brancas até 3 anos, não há candidatos que aceitem crianças de cor, o que nos coloca imediatamente no topo da lista, nós não colocamos restrição de raça.
 
Há sempre coisas que causam aflição quando se fala destes temas, o racismo das pessoas, a discriminação, as famosas listas nacionais que afinal não existem, mas sobretudo, as crianças devolvidas, sim, porque há quem devolva crianças..... haverá coisa mais cruel que abandonar novamente uma criança que iniciou  a sua vida sendo abandonada? mas disto, falarei outro dia... somos um país de gente racista e sem escrupulos....sem dúvida.
 
 
Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...
 
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...
 
Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar...
 
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar...
 
Alberto  Caeiro
In Guardador de rebanhos
 
Post publicado no dia 9 de Outubro no blog O que é o Jantar
 
Para assinar a petição pela instituição do dia nacional da adopção, por favor vão aqui: Assinar petição
 
Jorge Soares
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publicado por Missão Criança às 21:20
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Sexta-feira, 10 de Outubro de 2008

Petição para instituir Dia Nacional da Adopção de Crianças

Pelo direito a uma família

 

Para assinar a petição por favor vão aqui: Assinar petição

 

 

Ex.mo Senhor Presidente da Assembleia da República:

 

PETIÇÃO PARA INSTITUIR O DIA NACIONAL DA ADOPÇÃO DE CRIANÇAS EM 10 DE MAIO DE 2009

 

Considerando que:
• a adopção de crianças é uma realidade no nosso país;
• existem 11.362 crianças/jovens institucionalizados (dados referentes a 2007 explanados no Plano de Intervenção Imediata do Instituto da Segurança Social);
• é de extrema importância a promoção de um dos direitos fundamentais das crianças – direito a uma família;
• que foram adoptadas, no referido ano, apenas 417 crianças;
• é importante promover a consciencialização da sociedade para o facto de crianças que estão a crescer sem família estão a ser privadas daquilo que de mais importante existe para a sua formação, desenvolvimento e crescimento – o afecto, os laços, a conquista de um colo;
• a adopção pode representar um projecto de vida alternativo à institucionalização;
• que cada criança que seja adoptada é uma criança que, ainda, encontra o seu tempo de ser criança;

vem, desta forma, a Bem Me Queres - Associação de Apoio á Adopção de Crianças, NIPC 507705050, sediada na Rua Santa Justa 265, 2º 4200-479 Porto nos termos do artigo 52.º da Constituição da República Portuguesa, da Lei n.º 43/90, de 10.08, com as alterações introduzidas pelas Leis n.ºs 6/93, de 1.03, 15/2003, de 04.06 e 45/2007, de 24.08, conferir aos cidadãos a possibilidade de exercerem os seus direitos constitucionais de entrega de assinatura da presente petição a submeter à Assembleia da República para que seja instaurado em 10 de Maio de 2009 o DIA NACIONAL DA ADOPÇÃO DE CRIANÇAS, com os seguintes fundamentos:

 

a) Promover o debate na sociedade civil;
b) Consciencializar a sociedade para esta realidade;
c) Difundir junto das entidades competentes a dramática situação em que vivem as milhares de crianças institucionalizadas;
d) Sensibilizar o poder judicial para uma celeridade dos processos.

 

A presente petição vai assinada pelos cidadãos abaixo-assinados que aderiram à proposta apresentada pela Associação requerente.

Porto, 9 de Outubro de 2008

Os Peticionários

 

Para assinar a petição por favor vão aqui: Assinar petição

publicado por Jorge Soares às 14:43
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Quinta-feira, 9 de Outubro de 2008

Queríamos tanto ter um Pai e uma Mãe

Criança
Imagem retirada da internet
 
 
Olá,

Resolvemos escrever-te porque sei que desejas muito ter um filho.

Não, nós não somos o bebé com que tu sonhas..

 Já não usamos fraldas, não comemos papas…mas ainda somos crianças …. e queríamos tanto ter um papá e uma mamã.

O homem com quem vivíamos era alcoólico e batia na mulher.

Já não nos lembramos bem, dizem que era a nossa mãe e que um dia se fartou e foi-se embora. Ficamos sós.. e ficar sozinhos no mundo, com a nossa idade, é muito triste.

Vivemos desde essa altura numa casa bonita, com muitos meninos e meninas e há muitas senhoras muito simpáticas que tomam conta de nós.

Mas continuamos a sentirmo-nos sós… não temos um papá nem uma mamã…. e  queríamos tanto…

Nós sabemos, não somos o bebé com que tu sonhas….

Mas sabes? Nós também somos como tu. Também sonhamos.

Sonhamos que um dia vamos ter uma mamã que nos vai ajudar a escolher a roupa que vamos vestir, que nos vai levar á escola, que nos vai contar histórias, aconchegar os cobertores e dar-nos um grande beijinho de boa noite…

Sonhamos que um dia vamos ter um papá que vai andar connosco de bicicleta e nos vai ver no torneio de futebol da escola… e… vamos ser tão felizes!!

Quando isso acontecer...

vamos deixar de chorar porque os nossos colegas vão deixar de nos gozar porque não temos papá nem mamã,

vamos deixar de chorar quando nos aleijamos porque a nossa mamã vai dar-nos um beijinho na ferida e vai passar logo,

vamos deixar de chorar quando um colega mais velho nos bater porque vamos ter um papá para nos proteger,

vamos deixar de chorar quando encontrarem papás para os meninos mais pequeninos..porque já não vamos estar aqui, porque…. vamos ter a nossa família…e vamos dizer eu tenho um papá e uma mamã.

Tenho 9 anos, e o meu irmão 7,  mas ainda somos crianças, não somos?

Nós sabemos, não somos o bebé com que tu sonhas…

Mas se conheceres alguém que queira ser a nossa mamã ou o nosso papá, escreve-nos.
 
Este texto chegou-me por email, é o pensamento de dois irmãos que estão numa instituição, é uma carta real. Acha que lhes pode dar uma resposta?, que tem amor para lhes dar?, o meu mail está no perfil, envie-me um mail, eles precisam de um pai ou uma mãe.
 
Não há palavras para algo assim.
 
Jorge Soares

 

publicado por Jorge Soares às 14:20
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Terça-feira, 7 de Outubro de 2008

Meninos do Mundo

Meninos do Mundo 

Imagem retirada da internet

 

Sou um menino,

Cheguei a um Mundo, perdido,

Perdido de espaços ao meu sonho.

 

Descobri rostos, que me queriam, sem saber o meu rosto

Quando eu estava perdido, despido do calor da infância.

Encontrei braços de ternura,

Que me enlaçaram de Amor.

Que me conduziram às estrelas.

 

Eles, que me encontraram,

Que me sonharam, sonhando o meu sonho,

Que me procuraram, para nos realizar.

 

Eles, que me amaram sem eu saber

Quando eu era um menino, num Mundo perdido.

Eles, que me resgataram à vida,

Correndo um Mundo por mim.

 

Eles, meu Pai- Sol

Minha Mãe- Lua

Que do céu me guardaram,

Antes mesmo dos seus braços me envolverem.

 

Correram o Mundo por um filho

E eu ganhei o Mundo pelas suas mãos…

 

Quando eu era apenas…

Um MENINO DO MUNDO!

 

Francisca Chixaro

 

Uma criança é uma criança em qualquer parte do Mundo!

 

Retirado do blog Meninos do Mundo

Jorge

publicado por Jorge Soares às 11:18
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Sexta-feira, 3 de Outubro de 2008

Queria ser escolhido ....

Criança

 

Acordo bem cedo, mas gosto de ficar ali na cama a olhar para aquele espaço cheio de pessoas, e vazio de memórias... "Será que é hoje?" Não sei quem me ensinou esta frase, esta pergunta, mas sei-a de cor, repito-a todas as manhãs. A verdade é que não sei ainda acredito que o "hoje" pode chegar. "Será?"


Vivo nesta casa há 11 anos, no total dos meus 12. Tenho os colegas, as pessoas que cuidam de mim, a minha escola, mas... Falta-me algumas coisas. Queria um quarto só meu com coisas compradas para mim... Queria alguém se preocupasse realmente comigo, com as minhas notas e que parasse com a sua labuta só para me ouvir contar o que se passou no meu dia. Queria uma festa de anos, com bolo e presentes, com amigos, e quem sabe até com um palhaço? Queria poder jantar à mesa onde se contavam as novidades, historias e ensinamentos. Queria que me ajudassem a fazer os trabalhos da escola, que me ensinassem a andar de bicicleta, a construir pequenas coisas e a jogar à bola... Queria aprender o significado de preocupação, e de carinho. Queria saber o significado da palavra família, e o poder de um abraço. Queria tanto uma historia contada ao deitar, um abraço e um beijo de boa noite...

Sonho acordado com tudo isto, vejo-me a correr, a brincar e a sorrir num jardim grande de um casa bonita. Mas cada vez que apresentam o meu processo a um casal  vem o comentário, "Ele não, que é grande demais, queremos uma criança pequenina..." Nunca a ouvi é verdade, mas imagino que acontece. Os meninos pequeninos vão entrando e saindo, e eu vou ficando vendo aquele transito. Já pensei que ser um bom menino ajudaria, mas fui percebendo que não influencia, sou apenas grande demais... Agora vou ficando aqui até que um dia decidam o meu futuro.

Cátia Azenha

Texto de ficção publicado inicialmente no blog Ticho


publicado por Missão Criança às 10:28
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Quinta-feira, 2 de Outubro de 2008

Saudades de quem ainda não conhecemos...

Criança

 Imagem retirada da internet

 

Poucas vezes me recordo do que sonho. Esta noite no entanto, foi diferente.
“Esta noite sonhei com o meu filho. Sonhei que tinha recebido aquela tão aguardada chamada da Segurança Social, e que nos tinha sido proposto um menino de 4 anos. Aceitámos logo, e nesse mesmo dia poderíamos ir buscá-lo ao centro de acolhimento onde ele estava.


Chegámos a casa e contámos à F. e ao A. Ficaram radiantes... Arrumámos o quarto para os rapazes, pusemos lá uma cama nova, passámos na loja para comprar uma cadeira nova para o carro, numa outra comprámos um carrinho de brincar, que embrulhámos com um grande laço azul. Os 4 fomos então buscar o nosso novo mano.


Lá tudo foi muito rápido. O nosso “mano” aguardava-nos sentado num sofá. Sorriu com um sorriso do tamanho do mundo e chamou-me imediatamente de “Mãe”. Abraçámo-nos e viemos todos para casa. Ele nada quis trazer de lá. Queria vir para a casa nova sem nada que lhe recordasse o passado. Lembro-me de pensar que era uma ideia muito avançada para os seus tenros 4 anos.


À saída, vários meninos ficaram com ar choroso a olhar-nos do portão... Fiquei devastada. Apeteceu-me trazê-los todos para casa. Mas não podia...”


Acordei a chorar convulsivamente.
Este sonho foi em tudo diferente dos outros que costumo ter, principalmente pelos pormenores que recordo tão bem.


Acordei com o som do meu próprio choro, as lágrimas a escorrer pela cara, estava angustiada, triste, com tantas e tantas saudades daquele que ainda nem conheço. Nem sei explicar ao certo porque chorava. Ainda só tenho 2 meses de espera, e sei que este é um tempo de incertezas. Pode durar mais uns dias, uns meses, uns anos. Mas no meio desta incerteza, o que me faz doer muito mais o espírito, a alma, o coração de mãe, é o saber que o meu filho ou a minha filha já nasceu, já está por aí, poderá ser uma daquelas crianças de lágrimas nos olhos que eu vi ao portão, observando-me suplicantes. Ansiosas por uma família.


Não sei se tem olhos ou cabelos castanhos ou pretos. Se será menino ou menina. Alto ou baixo. Tímido ou reguila. Não sei se me vai adoptar logo no primeiro olhar ou se nos iremos conquistar pouco a pouco. Não sei se gosta mais de bifes com batatas fritas ou salsichas com esparguete.


Sei que o amo já muito, e que já choro por ele. Sei que já gerimos o espaço em casa a contar com a sua chegada. Sei que o carro novo foi comprado porque este modelo tem mais espaço para as 3 cadeiras no banco de trás. Sei que não sei entender como amo tanto alguém que não conheço...


É esta a dor da espera. É esta a ansiedade que os pais grávidos de coração têm de gerir. A gravidez que não se vê, que não se consegue medir.
 

Sofia

publicado por Missão Criança às 10:33
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Domingo, 28 de Setembro de 2008

Grande demais....

 

Criança

Imagem retirada de Ticho

 

Os risos ecoavam ainda pelos corredores largos, afastando-se. Nunca soube muito bem por ordem naquela correria desenfreada, nos atropelos à saída. Confesso mesmo, que em muitos dias, me apetecia simplesmente sair a correr com eles, esquecer tudo, e voltar a ter direito a brincar. Reconquistar os meus minutos de recreio!

Depois de todos terem saído, reparei na Sofia, ficara sentada, carita escondida pela cabeleira. Caminhei para ela, ouvindo apenas o som seco do tacão a bater na madeira velha do soalho e o frenesim distante que chegava da rua, para lá das velhas portas em arco.

“Posso sentar-me contigo?” – Perguntei com um sorriso, tentando adivinhar o motivo da sua tristeza. Limitou-se a acenar com a cabeça.

“Não queres brincar com os teus amiguinhos hoje?”

“Não! Já sou muito crescida!”

O seu tom era realmente o de um adulto triste, aprisionado no seu corpo e voz infantil. Avistei-lhe uma lágrima a despontar nos belos olhos negros. Senti o coração apertar-se face ao sofrimento daquela criança que aprendera com o tempo a amar.

“Sabes uma coisa Sofia, eu sou ainda mais crescida que tu e está a apetecer-me ir lá fora aos baloiços. Queres ir comigo?”

Fitou-me de frente, com os olhos arregalados de espanto.

“As duas? No baloiço?”

Sorri-lhe como resposta.

“Não!” - Disse peremptória e novamente cabisbaixa. – “Eu ontem ouvi que já sou grande demais...”

“Ouviste? Quem te disse?”

“Não foi a mim... Eu é que ouvi... Afinal já não vou ter uma mãe nova... Já sou muito grande...”

Apeteceu-me sair aos berros com quem o tivesse dito, mas em vez disso forcei um sorriso e tentei confortá-la.

“Pois eu não te acho muito crescida, acho que és uma menina linda e que quando tiveres uma mamã nova, ela será muito feliz contigo, terá muita sorte por te ter!”

“Achas?!”

“Tenho a certeza!”

O seu rosto abriu um sorriso rasgado e os bracitos magros atracaram-se no meu pescoço. Não lhe vi o rosto quando ela me fez a pergunta mais doce que algum dia escutei e eu tomei a decisão que me fez mais feliz.

“Isso quer dizer que gostavas de ser minha mãe?”

 

(Texto de ficção escrito por: Marta)

Obrigado Cátia e Marta

 

publicado por Missão Criança às 15:56
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Terça-feira, 23 de Setembro de 2008

Escritos precisam-se

Criança

Imagem retirada da internet

 

Criei este blog em resposta aos comentários e emails que fui recebendo cada vez que escrevo sobre adopção no meu O que é o jantar. A ideia é que este seja um espaço de partilha, de troca de experiências, troca de ansiedades, de medos, de alegrias e tristezas. Tenho tentado manter o blog activo, mas está claro que é uma tarefa árdua, por muito que eu queira não consigo ter tema todos os dias.

 

Bom, eu preciso de ajuda, imagino que muitas das pessoas que cá vem tem histórias para contar, experiências para partilhar, pontos de vista para discutir, que tal partilhar com todos?. Eu passei por um processo de adopção numa altura em que não havia informação em lado nenhum, em que não havia ajuda de ninguém nem ninguém com quem partilhar e discutir, agora as coisas são  um bocadinho diferentes, mas não muito, acho que há muito por fazer e muito por melhorar... mas sozinho não vou lá.

 

Deixo um apelo e um convite a todos para que participem no blog, enviem-me um email para jfreitas.soares@sapo.pt ou deixem um comentário com o vosso email de modo a acertarmos a melhor maneira.

 

De todo coração, obrigado por passarem por cá e se possível, por participarem

Jorge Soares

publicado por Jorge Soares às 10:19
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Segunda-feira, 22 de Setembro de 2008

Conseguimos medir o amor?

Crianças

imagem retirada da internet

 

A semana passada recebi um email de alguém que é candidato à adopção, um casal com filhos biológicos que decidiu adoptar. Entre outras coisas havia a confissão de um receio, o receio de não se conseguir gostar da criança que irão adoptar da mesma forma que gostam dos filhos biológicos. Na verdade não é a primeira vez que ouço alguém confessar este medo, é uma questão comum a alguns dos emails que vou recebendo.

 

Curiosamente, a primeira vez que alguém me falou disso foi ao contrario, no primeiro encontro nacional de adopção que foi organizado em Setúbal, uma mãe adoptiva dizia-me que tinha medo de engravidar e ter um filho biológico, porque ela não sabia se alguma vez poderia amar outro filho tanto como amava aquele filho adoptivo.

 

Não há uma resposta fácil para estas questões, as pessoas sabem que tenho um filho adoptivo e uma filha biológica e tentam saber o que sinto. É claro que amo os meus dois filhos, são ambos meus filhos, mas gosto dos dois da mesma forma? Não, claro que não, eles são duas crianças completamente diferentes, com comportamentos diferentes, com atitudes diferentes, e nós como humanos gostamos de pessoas diferentes de forma diferente. Amo mais um que outro? Não, mas é claro que tenho mais afinidades com um que com outro. Mas isso não tem nada a ver com um ser adoptado e outro biológico, tem a ver com a minha capacidade de me relacionar mais facilmente com umas pessoas que com outras, e os meus filhos não são excepção.

 

Curiosamente cá em casa, a minha filha é mais apegada ao pai e o meu filho é mais apegado à mãe, pelo que as coisas estão equilibradas.

 

Resumindo, este é um receio comum à maioria dos pais adoptivos, um receio que de uma forma ou de outra todos superamos, pois basta ver o sorriso de uma criança, o sorriso dos nossos filhos, para percebermos que não há como não os amar.

 

Não, não conseguimos medir o amor!

 

Post publicado originalmente no blog O que é o jantar

 

Jorge

publicado por Jorge Soares às 12:13
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Sexta-feira, 19 de Setembro de 2008

Adopção trata sobretudo de dar e receber

Adopção 

Cartaz da Associação Indiana para a Promoção da Adopção e do Bem-estar Infantil

 

Jorge

PS:obrigado Sofia.... não queres escrever algo?

publicado por Jorge Soares às 10:33
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Terça-feira, 16 de Setembro de 2008

Como o governo aposta no modelo errado

Crianças

 

Como estou com mais tempo tenho estado com alguma atenção aos logs do blog, nos últimos dois dias tive algumas dezenas de entradas de leitores que chegaram até aqui desde o google pesquisando por familia de acolhimento ou por adopção. Por norma isto acontece cada vez que algum destes temas está em destaque nos meios de comunicação, esta vez não foi a excepção, além de um programa na RTP sobre centros de acolhimento, encontrei esta noticia.

 
Não vi a reportagem na RTP, mas a noticia da Rádio Renascença chamou-me a atenção, porque do meu ponto de vista, o governo está a apostar e a gastar dinheiro no modelo errado, está-se a apostar no problema e não na solução.
 
Até 2006 existiam em Portugal 15000 crianças depositadas em centros de acolhimento, e o ritmo de crescimento era de aproximadamente 1000 por ano, desde o ano passado a segurança Social fala de  11000 sem que ninguém tenha explicado o que aconteceu ás restantes. 
 
Certo é que o país tem institucionalizadas milhares de crianças, destas, aproximadamente 1000 tem como projecto de vida a entrega para adopção, as restantes tem como projecto de vida o limbo das instituições. O estado vai gastar entre 12 e 15 milhões de Euros para reforçar este modelo, um modelo em que as crianças são entregues ao estado e ficam esquecidas, em que as crianças passam toda a sua vida nos centros de acolhimento, sem direito a uma família e sem direito a sonhar. Será isto o que queremos para as crianças?
 
O modelo dos centros de acolhimento tal como está é completamente errado, porque as crianças ficam perdidas em instituições que não se preocupam com definir projectos de vida, instituições que recebem muito dinheiro por cada criança e portanto não tem interesse em que estas saiam.
 
Diz a noticia que as crianças ficam institucionalizadas até um ano, talvez fiquem até um ano nos centros de emergência, a verdade é que há milhares de criança que vivem institucionalizadas toda a sua vida e só saem dos centros quando são adultos. Entretanto há milhares de candidatos à adopção que esperam e desesperam por uma criança.
 
O estado deveria apostar em definir o projecto de vida de cada uma das crianças que tem a seu cargo e através disto no encerramento de centros de acolhimento. Reforçar a rede de centros de acolhimento sem apostar nos projectos de vida das crianças e sem se preocupar em que estas tenham uma família é uma aberração.
 
Quantas famílias carenciadas poderiam ser ajudadas com estes 15 milhões de euros?
 
Post publicado inicialmente no blog O que é o jantar
Jorge
PS:imagem retirada da internet.
publicado por Jorge Soares às 22:36
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Segunda-feira, 4 de Agosto de 2008

Os dados estão lançados. Resta-nos aguardar...

Mãos
 

Imagem retirada da internet

 

Sempre sonhei com a adopção, mas pensava nisso como um projecto para mais tarde. A Infertilidade bateu-nos à porta e foi assim que no dia 20 de Maio de 2008 que tivemos a primeira entrevista na segurança social, para dar início ao processo de adopção! A Educadora que nos entrevistou foi muito simpática mas também muito fria e crua, disse que os processos podem ser muito longos, mas podem também ser muito rápidos. Que são crianças que requerem atenção especial pelo que já passaram e que é raro crianças para adopção com menos de 1 ano, pela morosidade dos processos. Ficou muito admirada por sermos muito novos, especialmente o meu marido, diz que somos um caso raro (Eu tenho 28 e ele 26). Mas disse que isso é uma vantagem, pois preferem entregar as crianças mais novas a casais mais novos.


Ela teve também algum receio que não tivéssemos pensado bem no assunto, por sermos muito novos, e falou na possibilidade de ter um filho biológico e se isso alteraria a minha vontade e disponibilidade para adoptar. Não vejo nisso um problema, penso que as relações entre irmãos são sempre positivas e uma coisa não invalida a outra.  Acabou por ser uma conversa agradável de esclarecimento da realidade da adopção. Saímos de lá hilariantes, com um sorriso contagiante, como duas crianças.


Surpreende-nos bastante a reacção das pessoas, que até aqui tem reagido muito bem mesmo. Pensei que houvessem alguns mais reticentes que outros, mas nem por isso.


Aguardamos por um filho que espera por nós assim como esperamos por ele. Ainda não o conhecemos, mas ele tem já um lugar especial nos nossos corações. Temos a espera em comum, uma espera que não é fácil, mas mais cedo ou mais tarde iremos de encontro a ele.


Ana Filipa H.

publicado por Missão Criança às 11:20
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Domingo, 3 de Agosto de 2008

Espera em família

 

Abraço

Imagem retirada da internet
 
 
Ontem o meu filho dizia-me:
-Disse à minha professora do ATL que vou adoptar uma mana. Ela ficou muito contente!
 
Eu também fiquei contente por ele ter querido partilhar a novidade com a professora…mas por outro lado fiquei a pensar…se a espera não irá ser demasiado longa…E há 10 anos atrás eu esperei sozinha com o meu marido. Foi uma espera silenciosa…Hoje é uma espera partilhada com os meus dois filhos e com o resto da família alargada…Mas, enquanto eu como pessoa aprendi a gerir muito melhor a espera…sinto que a ansiedade que eu vivi na 1ª vez está de alguma forma a ser vivida hoje pelos meus dois filhos…E a ilusão inicial de que talvez a espera não fosse muito longa…existe agora a percepção que talvez esta espera se estenda por vários anos…
 
Se por um lado não faria qualquer sentido partir para uma 2ª adopção sem envolver no processo os meus dois filhos, por outro preocupo-me se vou conseguir ajuda-los a gerir a expectativa e a frustração da espera.
 
 
Patricia Macedo
publicado por Missão Criança às 01:02
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Segunda-feira, 28 de Julho de 2008

A espera:Dia zero

Ma0s

Imagem retirada da internet

 

Ontem foi o dia zero, dia da entrega da documentação na Segurança Social, é curioso, passaram 10 anos desde que iniciamos o primeiro processo de adopção, mas por incrível que pareça, pouco mudou. O local é o mesmo, e ainda que a P. tenha achado que as coisas melhoraram, a mim pareceram-me ... iguais, nem mais nem menos, exactamente iguais. Como é natural, nós mudamos, 10 anos é muito tempo nas nossas vidas, agora não há a ansiedade do primeiro filho, nem a angustia de enfrentar o desconhecido.... agora somos espertos nisto e sabemos o que aí vem.

 

Como dizia, há coisas que não mudam, e o atendimento no serviço publico não muda mesmo, nunca. Chegamos e não havia ninguém para receber as pessoas, e ficamos à espera no patamar da escada, nós e mais 4 ou 5 pessoas que soubemos depois iam a uma reunião, entretanto as funcionárias passavam, viam a aglomeração de gente no patamar..e nem agua vai, nem agua vem.....

 

Por fim, alguém achou estranho a aglomeração de gente no patamar da escada e veio perguntar... depois de encaminhar as pessoas para a sala de reuniões e de perguntar ao que íamos, lá foi avisar que lá estávamos..e continuamos à espera, e entretanto, servíamos de recepcionista e íamos enviando as pessoas que iam chegando atrasadas para a tal reunião....finalmente 20 minutos depois da hora.. lá fomos atendidos. Eu sou pontual, sempre, e claro que me irrita que o mundo não o seja.... mas sei, que neste caso tenho que ferver para dentro... porque a verdade é que estamos nas mãos delas..e não há para donde reclamar.

 

Entregues os documentos, resta-nos esperar, o estado tem seis meses para fazer a avaliação, e utiliza-os até ao ultimo dia, as desculpas são as mesmas de há 10 anos atrás, elas tem muito que fazer... mas vá lá, desta vez temos o numero do processo desde o primeiro dia.

 

A espera

 

Deito-me tarde
Espero por uma espécie de silêncio
Que nunca chega cedo
Espero a atenção a concentração da hora tardia
Ardente e nua
É então que os espelhos acendem o seu segundo brilho
É então que se vê o desenho do vazio
É então que se vê subitamente
A nossa própria mão poisada sobre a mesa

É então que se vê o passar do silêncio

Navegação antiquíssima e solene

 

Sophia de Mello Breyner

 

Este texto foi publicado inicialmente no Blog O que é o jantar no dia 12 de Junho de 2008

 

Jorge Soares

publicado por Jorge Soares às 18:51
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Terça-feira, 22 de Julho de 2008

Próximo encontro de reflexão Bem Me queres

    Porto
26/Jul/08

Objectivo:
                  Partilha de
experiências

Destinatários:
Candidatos
já selecionados
e pais adoptivos

Local: R. Ciríaco Cardoso, 186 Porto
Para ver mapa clique aqui

Horário : das 15:30 ás 18:00

Para se inscrever clique aqui.
Para + informações
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publicado por Missão Criança às 20:40
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Sexta-feira, 18 de Julho de 2008

O MELHOR DO MUNDO SÃO AS CRIANÇAS (JÁ DIZIA O POETA) MAS…

Imagem retirada da intrnet

 
De acordo com o Plano de Intervenção Imediata da Segurança Social de 2006, encontravam-se institucionalizadas no final daquele ano 12.245 crianças/jovens.
 
Sendo que:
a)      10.134 tiveram início de acolhimento anterior a 2006;
b)      2.084 com início de acolhimento em 2006;
c)      27 com integração em acolhimento em 2006.
 
Há, ainda, a acrescentar:
a)      2.771 crianças/jovens cessaram o acolhimento em 2006;
b)      2.361 com início de acolhimento anterior a 2006 e que cessaram em 2006;
c)      410 iniciaram e cessaram em 2006.
 
Por outro lado, de acordo com o ISS (Instituto da Segurança Social), no final do mês de Maio de 2008, a nível nacional os dados eram os seguintes:
 
Crianças em situação de adoptabilidade: 1654  
a)      a aguardar família candidata à adopção: 528
b)      Em vias de integração no seio familiar do candidato: 118
c)      Em período de pré-adopção: 580
d)     Com adopção decretada: 428
 
Candidatos seleccionados a aguardar proposta: 2346
 
Que mais poderá ser dito?
Que as crianças são esquecidas todos os dias?
Que somos um país que contínua a privilegiar o biologismo ao afecto?
Que estas crianças vivem no silêncio de quatro paredes, enquanto todos os dias continuamos a viver a nossa vida?
Que somos um país em que os recursos falham, as famílias não são acompanhadas e cada dia que passa é mais um dia perdido?
 
Que fazer? Só nos resta continuar a denunciar e a chamar atenção…até que a voz nos doa.
 
Maria João

Fonte: II, IP-Listas Nacionais de adopção, em 30.05.2008, Departamento de Desenvolvimento Social do ISS
 
publicado por Missão Criança às 10:55
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Quarta-feira, 16 de Julho de 2008

A verdadeira natureza da adopção

Imagem retirada da internet

 

 
As famílias sem filhos tem apoio como adoptantes, a sociedade compreende-os, são aqueles que vão adoptar para ter uma família. E isto é compreensível e louvável!

Nós, famílias com filhos biológicos, adoptarmos é considerado uma loucura, um disparate tremendo, um acto de altruísmo deslocado e é muitas vezes mal visto.
 
A minha experiencia não tem sido fantástica…
 
- Então, mas vocês tem 3 filhas tão bonitas, porque é que querem ir adoptar??? (Implicando que essa criança não será decerto bonita?)
 
- Porque não tentas mais um teu? Pode ser que venha O RAPAZ.
(Porque claro que outro motivo teríamos nos para adoptar senão procurar O rapaz?)
 
- E se os "verdadeiros pais" depois querem a criança de volta????
(Verdadeiros pais? – os que abusaram, abandonaram, negligenciaram? São pais biológicos sem duvida, mas não são verdadeiros pais em mais sentido nenhum, nem legalmente…)

- Mas estão assim tão desesperados para irem adoptar uma criança de outra raça? (A adopção inter-racial só pode nascer de sentimentos de desespero?)
 
- Um casal com filhos adoptar??? Vocês sabem lá o que vem de lá!!!
(Uma criança?)
 
As pessoas que seriam incapazes de sair do caminho delas para adoptar fosse quem fosse são os primeiros a reprovar, e arranjar imensos argumentos, sabe-se lã que doenças, taras, etc., a criancinha vai trazer e muitas outras barbaridades.
 
E quanto a isto ser dito ou não por mal, para mim é irrelevante, a verdade é que não consideram a criança adoptada como parte da família, e que isso transparece nestes comentários.

Isto mostra que não compreendem a verdadeira natureza da adopção:
 
1.     A adopção é um processo irreversível e permanente, a criança tem os mesmos direitos que um filho biológico. No é um filho adoptado, é um filho.
 
2.     A criança disponível para adopção é um órfão!

Não tem pais, se tivesse não estaria à espera de uma família adoptiva.
Todas as crianças que são adoptadas são órfãos, se não no sentido tradicional da palavra, são concerteza órfãos sociais, órfãos de pais frequentemente vivos que por motivos vários não podem ser pais. Não tem pais! Ou somos nos, adoptantes, ou sopas! (ou pior, instituição.)
 
Os comentários mostram também que, para eles, uma criança que não nasça na família, não é, nem nunca será, parte da família.
Isto magoa tremendamente a criança e para mim, como mãe, mostra que a nossa decisão de sermos pais por adopção, é demitida e transformada numa mentira completa por eles, já' que não consideram essa criança, de facto, como nosso filho.

Para eles, essa criança é só uma criança "qualquer" que fomos buscar. E não tenho duvidas nenhumas que se a nossa criança nos der alguns problemas na adolescência (que jovem não da?), vão haver comentários nas nossas costas sobre os "filhos adoptivos que nunca agradecem".

Estou cansada das pessoas que dizem mal dos filhos adoptados, ou deles directamente, nas suas diversas fases da vida, ou das coisas más que trarão com eles, numa de "a bem" tentar demover-nos da ideia de adoptar.
 
Ando tão chateada que vou fazer o meu processo todo em segredo e saberão quando receberem a primeira fotografia dos nossos 4 miúdos!
 
Teresa
 
publicado por Missão Criança às 00:12
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Terça-feira, 15 de Julho de 2008

Eu FUI adoptada!

 

Criança

 
Muito bom dia a todos:
Este blog nasceu da vontade de um grupo já considerável de pessoas que pretendem mudar o modo como o resto das pessoas com quem convivem e com quem provavelmente nunca se irão cruzar vêm e actuam perante a adopção. É uma luta que há muito deixou de ser pessoal, que deixou de estar ao favor da protecção de apenas das suas famílias: aqui inspira-se o desejo de defesa dos direitos da criança e da família. Porque é disso mesmo que se trata. Não apenas de um grupo de pessoas que está a tentar melhorar o seu percurso individual.
Há já algum tempo que tinha ficado de deixar aqui as minhas palavras. A maior parte das pessoas que neste momento aqui vêm são pessoas que, por alguma razão, já estão inseridas no mundo da adopção. Mas eu espero que muitas mais venham também a compartilhar de todas as palavras que por aqui irão surgindo. Tenho a certeza que sairão daqui mais ricas, mesmo que só haja uma pequenina onda de mudança.
Eu FUI adoptada. Pretérito perfeito. Fui porque neste momento NÃO sou adoptada. Estou tão plena na minha família como qualquer outra pessoa. Fui adoptada já com quase 4 anos. E sabem que mais? Há algo que me chateia bastante: quando me vêm com aquela conversa de que as crianças que foram adoptadas são crianças difíceis, que são uma “carga de problemas” eu pergunto-me já não terão elas sido capadas de oportunidades o suficiente?? Estas crianças são muitas vezes mais fortes, mais resilientes do que se possa pensar. Vivem à espera de uma oportunidade de serem felizes. Quem somos nós para lhes colocarmos ainda por cima o peso de uma responsabilidade que não é delas? Têm um rótulo escrito na testa? São menos inteligentes, menos bonitas, menos merecedoras de uma família? Não esperam muito de nós. Às vezes é o que sinto à volta, nos comentários, nos suspiros calados. Talvez venhamos a ser delinquentes, prostitutas, com baixo Q.I e graves falhas de personalidade. Ou talvez não.  Sinceramente temos a mesma probabilidade de errar que qualquer outra criança, de qualquer outro adulto. E não pensem que estou aqui a desvalorizar a história pessoal de cada uma dessas crianças que por uma razão ou outra, de uma forma ou de outra foram deixadas para trás. Esquecidas. Física e psicologicamente violentadas. Não. Nunca. Há uma importante parte de nós que nasce daquilo que vivemos. Mas também há toda a possibilidade de crescimento pelo amor. O amor como disciplinador, o amor como o beijo de boa noite e o aconchegar da roupa, o amor como o dizer infinitas vezes que se ama apesar de todas as infinitas vezes em que estão menos bem, ou até mesmo malJ.
É o amor como factor protector. Dêem-lhes o que elas merecem. Oportunidades. Oportunidades de serem melhores pessoas. Dêem-se a vós mesmos a capacidade de acreditar que a vossa capacidade de amar é um principio de um processo de crescimento para ambos.
Susana
PS:imagem retirada da Internet
publicado por Missão Criança às 13:40
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Segunda-feira, 14 de Julho de 2008

ADOPÇÃO DE CRIANÇAS DE OUTRAS ETNIAS

mãos

 

Cada dia que passa sinto que vivemos, efectivamente, num mundo racista, intolerante e que o significado das palavras solidariedade e fraternidade há muito que deixaram de fazer sentido, se é que alguma vez tiveram eco.
 
Uma criança é uma criança em qualquer parte do mundo e com qualquer característica que a caracterize. Enquanto a cor de pele for um dos factores de discriminação na nossa sociedade moderna, muito caminho, ainda, há a percorrer.
 
Certo dia cheguei à porta do colégio da minha filha e um amiguinho dela (de quem ela gosta muito, por sinal) disse: “não vou brincar mais contigo, porque tu és preta e a minha mãe e o meu pai dizem que os pretos são maus”!!!!!!!!!!!!!!!! 
 
Não há consolo possível para uma criança de 5 anos que não entende o porquê daquele comentário.
 
A ignorância é muito atrevida, não daquela criança que apenas repetiu o que ouviu mas daqueles pais que ousaram espezinhar a minha filha. E pensar que tudo não passa de uma questão de melanina!!!!!!!!!!!!!!
 
Ainda teremos que crescer muito enquanto homens e mulheres para olharmos de forma igual o que é diferente.
 
Até lá, resta-nos lutar todos os dias para que os nossos filhos cor de canela possam sorrir não apenas com os lábios mas com alma.
 
Maria João
PS:Imagem retirada da Internet
publicado por Missão Criança às 08:37
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Quinta-feira, 10 de Julho de 2008

Adoptar, porquê?

Meninos

 

Estou teórica e oficialmente a 26 dias do prazo legal para dar por terminada a primeira fase do meu processo de adopção. Já fizemos as entrevistas, já recebemos a visita domiciliária, e pelas “restrições” que colocámos na adopção, todos nos dizem que o nosso processo não deverá ser muito longo. Assim o esperamos.

Porquê adoptar? É curiosa esta pergunta. Sempre tive este sonho, mas nunca o contei a ninguém. O meu marido a mesma coisa. Depois de 2 filhos biológicos, e com o sonho de termos no mínimo 3, surgiu esta opção, para nós natural, que se está a tornar dia a dia cada vez mais uma realidade.

Quando começámos a contar à família, aos amigos mais chegados, NUNCA ninguém nos perguntou isso. Têm feito as mais variadas perguntas: então e quando vem, queres menino ou menina, idade, a escola, a arrumação dos quartos dos miúdos, etc etc, mas ninguém me perguntou o porquê.

Daí que ache curioso…

No entanto, e porque entendo que essa opção possa causar estranheza a algumas pessoas, vou explicar um pouquinho as nossas razões, para nós mais do que óbvias e “inexplicáveis”.

Tenho apenas um irmão, mas em compensação tenho 8 primos direitos, e sempre fomos criados juntos, sempre juntávamos a família toda nos aniversários, Natal, Páscoa, etc. Agora, com quase todos casados e pais de filhos, continuamos a fazer isso, com maior ou menor regularidade. Estou pois, muito habituada a ter a casa sempre cheia de crianças, de família. Estamos juntos nos bons e nos maus momentos. Somos muitos, e gostamos de nos reunir e saber que contamos uns com os outros.

A história do Z. é quase a oposta. Filho único, pouco habituado a conviver com os poucos primos que tem. Por isso, hoje com 44 anos sente a falta de outro apoio, agora que começa a caber-nos a tarefa de retribuir aos nossos pais todo o apoio que nos deram no crescimento. Ao conhecer a minha família, sempre disse que gostava de proporcionar aos filhos este convívio.

A nossa história enquanto casal sempre teve como ponto assente os filhos. Sempre quisemos ter pelo menos 3, mais se for possível. Nasceu a F., nasceu o A.. Começámos a falar do seguinte. Começámos a falar da adopção. Começou a ser óbvio que esse era o caminho a seguir. Já passámos pela felicidade de 2 gravidezes. Porque não agora sermos família para uma criança que está por aí, numa instituição, sem pai nem mãe, sem família para lhe dar amor e carinho? Assim foi tomada a nossa opção.

Não pedimos nenhum bebé. Achamos que essa oportunidade pode ser dada a casais que não possam ter filhos biológicos. Optámos por uma criança até aos 6/7 anos, para poder ser o “irmão do meio”, ou o mais novo. Achamos que assim é uma opção justa para todas as pessoas envolvidas nestes processos.

Já só anseio por o/a ver, a correr no quintal. Anseio por ouvir as suas gargalhadas na piscina, anseio pelas brigas deles todos no banco de trás do carro.

Adoptar porquê? Naaaaaaaaa

Eu pergunto: Adoptar, porque não?

Sofia

publicado por Missão Criança às 21:20
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Domingo, 6 de Julho de 2008

Os Olhos do nosso filho

Criança

 

Ontem recebi no meu email este poema que foi escrito por alguém que está a passar por um processo de adopção, alguém que espera e desespera por um filho, alguém que tem muito amor para dar.
 

Os olhos do nosso filho

Os olhos do nosso filho
São ainda de cor incerta
Não sei sequer se existem
Vão ser de Deus uma oferta

Existem na minha alma
Cravados no meu semblante
Os olhos do nosso filho
Que teve nascer errante

Foste esculpido a preceito
Nas entranhas de outro ser
Não vais sorver do meu peito
Este meu longo querer

E nestas voltas da vida
Cuidou-te Deus sem saber
Para que não herdes no sangue
Este meu estéril sofrer

Não vais nascer de mim
De outro ventre virás
Mas filho da minha alma
Tão amado serás!

E nesta triste incerteza
Me pergunto em desalento
Já nascente de alguém?
Ou é Deus que te traz?

Ala dos Reis


A dor de se querer ter um filho e não se conseguir é algo que não se consegue explicar, de inicio vamos tendo desilusões, depois começa o sofrimento, ver passar o tempo, ouvir as pessoas a perguntar:

-Então, é para quando?
-Quando vamos ter um neto?
-Então, e filhos?

Respondemos às pessoas com um sorriso de circunstância e sofremos em silêncio. lembro-me de ir pela rua, olhar os casais com bebés e pensar: E eu? porque é que eu não tenho direito?. Chega uma altura em que começa a ser doloroso ver crianças na rua. E depois há as expectativas das pessoas que estão à nossa volta, as lágrimas em casa cada vez que aparece um novo período , as lágrimas em silêncio na nossa solidão. Com o tempo, os meses transformam-se em anos e a tristeza em resignação. Nós decidimos que não íamos continuar com dor, e não íamos seguir a via sacra dos tratamentos, decidimos partir para a adopção.

No fundo, mudamos a expectativa, as coisas deixam de depender de nós e passam a depender de outras pessoas, processos longos, morosos, complicados, muitas vezes inumanos ...e novas expectativas, e novas esperas. O Poema traduz um pouco do que é querer ser pai adoptivo, traduz a espera desesperante por um telefonema, por uma noticia, saber que o nosso filho poderá estar neste momento nos braços de alguém. Cada pessoa é diferente, mas atrevo-me a dizer que os pensamentos são comuns..será que o meu filhos já nasceu?..será que está bem?, será .......

Eu sou uma pessoa que não crio expectativas da vida, a maior parte do tempo limito-me a viver, um dia de cada vez, só crio expectativas com as pessoas, por norma entrego-me de alma e coração às pessoas de quem gosto...e dos meus filhos.

Sei que uma boa parte dos leitores chegam ao blog à procura de informação sobre adopção, a todos eles, a todos os que estão, ou vão passar por isto, deixo uma palavra de carinho e  de força, não desistam, não deixem de acreditar.

Jorge
PS:Imagem retirada da internet
PS2.Este texto foi publicado inicialmente no blog O que é o jantar
publicado por Jorge Soares às 21:33
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Quinta-feira, 3 de Julho de 2008

Ser Criança

 

Brincar

 

Ser Criança

 

Eu ainda sou uma criança!

Ser criança é ser simples, puro e límpido.

Ser criança é ser como a água cristalina que corre em todas as fontes.

Ser criança é ter a paz.

Ser criança é plantar neste chão duro da nossa existência as flores cujo perfume inebriasse todos os Homens para que o ódio e guerra dessem lugar à paz e ao amor. Ser criança é sentir a claridade da luz indefesa para além das trevas da escuridão.

Ser criança é sentir a beleza do amor para além de todos condicionalismos.

Ser criança é sentir o cheiro das flores muito para além dos seus espinhos.

Ser criança é fazer brotar um largo sorriso no mais sisudo dos Homens.

Ser criança é sonhar. Sonhar poder um dia comandar Homens para os deixar incapazes de construir máquinas que matam outros Homens.

Ser criança não é tão fácil, como todos dizem, mas é bom de ser criança

Ser criança é preservar todos os valores humanos, desde a espontaneidade até à sinceridade, desde a simplicidade até à complexidade.

Ser criança é descobrir coisas novas da vida, é sonhar, é imaginar, é acreditar num mundo melhor.

Ser criança é fazer amizades a todo o momento, é zangar-se e fazer as pazes no segundo seguinte.

Ser criança é acreditar, é confiar, é afastar hipocrisias e pintar o mundo todo com as cores da esperança.

Ser criança é ser diferente do adulto.

Ser criança é saber inventar todas estas coisas.

Quem me dera ser criança, para poder … enfim perdoar...

 

Armando Tavares

http://segurancaditasocial.blogspot.com/
http://sdscont.blogspot.com/

 

publicado por Missão Criança às 13:47
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Terça-feira, 24 de Junho de 2008

Adopção de crianças mais velhas

Crianças

Imagem retirada da internet

 

A grande maioria dos candidatos a adopção escolhe crianças até quatro ou cinco anos.

 

Sabemos, pelos dados da Segurança Social, que um número significativo de crianças encaminhadas para adopção tem mais de seis anos, isto para já não falar das que estão institucionalizadas e que não se sabe qual será o seu projecto de vida.
 
É legitimo que quem deseja adoptar idealize um bebé, ou uma criança o mais pequena possível, e imaginar ir construindo a sua estrutura e acompanhar o seu crescimento e desenvolvimento.
 
Mas já será um pouco mais estranho que esses candidatos aceitem esperar, às vezes durante anos, pelo seu desejado pequenino, sabendo que algumas centenas de outras crianças desesperam nas instituições, cheias de ansiedade e com todo o amor para entregar a uns braços que as acolham para sempre.
 
Também não podemos simplesmente pensar que isto acontece por uma atitude puramente egoísta dos candidatos à adopção, pelo que pessoalmente concluo que, com excepção de alguns casos mais “patológicos” em que existe uma necessidade psicológica de encarar apenas o bebé como única hipótese (normalmente quando a decisão de adoptar é consequência de infertilidade), na maior parte dos casos essa opção será motivada por receios infundados ou ideias preconcebidas resultantes de falta de informação.
 
É evidente que a abordagem inicial de uma criança mais crescida será obviamente diferente, mas isso não significa que seja mais ou menos problemática. Quando institucionalizadas, estão muito mais conscientes da sua situação e desejam muito mais encontrar uns braços que as possam acolher. Podem em muitos casos apresentar um quadro muito mais estável do que uma outra com poucos meses, separada dos progenitores e que ainda não tem capacidade de entendimento do que se passa à sua volta.
 
Adoptar uma criança mais velha pode à partida parecer um pouco estranho, mas talvez seja útil parar um pouco para meditar sobre esse assunto.
 
Antonio3000@sapo.pt

publicado por Missão Criança às 20:00
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Segunda-feira, 23 de Junho de 2008

A minha História

"A propósito do Natal, nesta data recordo-me sempre o dia em que fiquei a saber que os meus pais, não eram os meus "pais de sangue".

Devia ter por volta de uns 6 anos, assistia com a minha mãe a um programa sobre o nascimento de Jesus. A certa altura dizia-se que Jesus era filho adoptivo de José. Eu viro-me para a minha mãe e pergunto-lhe: "o que é filho adoptivo?", e a minha mãe friamente diz-me: "olha, tu por exemplo, és filha adoptiva, não saíste da barriga da mãe, a mãe foi-te buscar a uma casa aonde estavam muitas crianças abandonadas".

Imaginam a minha cara, não? O mundo caiu sobre mim. A partir desse dia nunca mais vi a minha mãe com os mesmos olhos. Sei que esse dia foi determinante para a nossa relação até hoje.

Sim, fui adoptada com 4 anos, não tenho recordações algumas para trás dessa idade, por isso a minha surpresa quando esta "novidade" me foi anunciada. Fiquei triste muito triste mas a primeira pergunta que fiz foi: "tenho irmãos?", "tens um irmão", foi a resposta que me foi dada. Mas afinal tinha 4 e dois bem perto de mim e eu sem nada saber...

Após muitas tentativas e de muitas buscas aos 16 anos descobri os meus irmãos Paulo e Odete que afinal vivam tão perto de mim. Hoje a minha irmã é a minha melhor amiga e o meu irmão, bem, temos uma relação de altos e baixos, muito por culpa da mulher dele e do nosso feitio igual, mas amo-o muito.

Continuo sem perceber, porque perdoar perdoei há muito tempo, porque é que a minha mãe biológica nos abandonou. Conheço-a e não gosto dela, aliás não gostar não é bem o termo, não tenho sentimento algum por ela, é como uma pessoa qualquer e sinto é recíproco...

A minha mãe adoptiva, bem... aos 18 anos saí de casa por não aguentar mais. Hoje temos uma relação, como nunca tivemos. Melhorou muito depois do nascimento do meu filho mais velho, era ela que ficava com ele até ter entrado na escola aos 4 anos. Tenho pena, alguma dor mesmo, por saber que as coisas podia ter sido diferentes se ela não tivesse uma obsessão tão grande por mim, era amor demais, daquele que nos sufoca e não nos deixa viver... Fez de mim a mulher que hoje sou, incutiu-me bons valores, que me impediram de ir pelos maus caminhos, apesar de todas as minhas cabeçadas desde os 18 anos até hoje, penso que sempre tentei e acho que consegui, manter-me digna. E hoje com 2 filhos vejo algumas coisas de maneira diferente, mas o que vivi com ela ensinou-me que tenho que deixá-los fazer as suas escolhas, não deixando de dar os meus conselhos e estar sempre com os braços estendidos quando precisam de mim, que é exactamente o oposto do que fizeram comigo.

Adoptar uma criança e fazer dela a sua filha é um grande acto amor, talvez o maior de todos e no fundo agradeço à minha mãe de coração tudo o que fez por mim e por ter feito de mim uma Mulher!"

 

Escrito aqui em 25-01-2008

 

publicado por Anjos às 11:18
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Sábado, 21 de Junho de 2008

E nós não estivemos lá sempre…

 

Abraço

Imagem retirada da internet

 

A minha experiência como mãe adoptiva desde há 7 anos, leva-me a crer que uma das grandes questões com que mães, pais e filhos adoptivos têm que aprender a lidar é o facto de não terem estado juntos desde sempre. Têm que aprender a lidar com um passado, passado esse, de que por vezes quase nada se sabe ou apenas se sabe que foi triste e doloroso. Em qualquer das circunstâncias, bom ou mau, conhecido ou desconhecido, esse passado existe e toma por vezes uma grande importância na vida da criança e dos seus pais. Quantas vezes dei por mim a lamentar, por não ter estado ao lado do meu filho desde o primeiro momento, quanta vezes dei por mim a desejar que não tivesse havido “senhora” nenhuma que o tivesse carregado na barriga…mas sim eu própria…quantas vezes, dei por mim a desejar que o fantasma da outra senhora…que paira dentro da cabecinha do meu filho e que por vezes toma forma de vitima e outras de vilã simplesmente se esfumasse…. Mas também sei, que o passado não se apaga com uma borracha…que a dor e as dúvidas que o meu filho sente têm que ser superadas por ele próprio ao longo do seu crescimento. E que a mim mãe, compete-me  estar ao seu lado, para o confortar, esclarecer-lhe as dúvidas quando possível e ama-lo incondicionalmente. Mas amar…é também aceitar o passado e aceitar que não estivemos lá sempre …Mas, estamos agora no seu presente e poderemos estar no seu futuro.

 

Aqui fica um bocadinho da conversa que o meu filho teve comigo aos 4 anos de idade e que ilustra essa dor….

 

- Mãe, vou deixar de comer.

- Mas porquê, meu filho?

- Para morrer.

- Mas porque queres tu morrer?

- Para poder nascer de novo e desta vez nascer da tua barriga.

 

Patrícia Macedo

 

publicado por Missão Criança às 01:03
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Sexta-feira, 20 de Junho de 2008

Quando os bebés vem da casinha e não de Paris

 

Quando trouxeram o N., a R. tinha 18 meses, era uma criança precoce, não tivemos uma única cena, não mudou, não passou a fazer birras, adoptou o mano com a mesma velocidade que o mano adoptou a mãe. É claro que durante uns tempos cada vez que tínhamos alguma visita com bebés, sentíamos que ela ficava na expectativa se aquele também ia cá ficar em casa ou se ia embora com os pais.... afinal, para ela tinham chegado uns adultos um dia com um bebé e foram-se embora sem ele.

 

Quando temos uma criança  com 18 meses e outra com um ano não há muito a explicar, as coisas simplesmente vão acontecendo. Uma das perguntas que as pessoas me fazem mais vezes é, como é que se conta a uma criança que ela  é adoptada?, será que devemos contar?, quando?, e porquê? então e se já existirem filhos biológicos?, como é que lhes contamos a eles?

 

É evidente que para estas coisas não há receitas, cada caso é um caso, cada criança é diferente de todas as outras, e a maneira como os pais encaram o assunto também varia. Existem pessoas que se resistem a contar, ainda há pouco tempo uma das professoras dos meus filhos veio falar com a minha mulher porque tinha uma criança com 7 ou oito anos que era adoptada e não o sabia, os pais não queriam contar e ela não sabia como lidar com a situação.

 

No nosso caso não era fácil esconder, entre uma criança loira e outra mulata não há como esconder, mas tenho a certeza que teríamos agido da mesma forma se fossem ambos mulatos ou ambos loiros, nós simplesmente fomos dizendo as coisas de forma natural e à medida que eles vão crescendo nós vamos acrescentando detalhes.

 

Começamos por explicar à R. que o N. estava numa casinha, porque os pais não podiam cuidar dele e portanto nós ficamos pais dele, a historia da casinha foi-os acompanhando e passou a ser uma coisa natural, tão natural que um dia tinha a R. 3 ou 4 anos, aconteceu que estávamos a ter uma conversa com alguém que  dizia que ter filhos era muito complicado, e problemático, não se sabia se era menino ou menina, depois os quartos, as camas..... e ela vira-se para a pessoa e diz:

 

-Não, isso não é problema, vais à casinha, escolhes o menino e já está, assim não tens esses problemas todos!

 

Com o tempo eles foram crescendo e as coisas foram evoluindo, até ao ponto que o N. quis ir visitar a casinha onde esteve, é claro que a R. também quis ir, e foram, e estiveram montes de tempo e no fim foi difícil convence-los que não podiam trazer para mana aquela menina linda que lá estava e não tinha pais.

 

Entre os 5 e os 6 anos, a R. meteu na cabeça que queria uma irmã, mas não era um bebé, era uma irmã grande para poder brincar com ela sem as implicações do mano.....íamos à casinha ........

 

Isto passou a ser tão natural que o facto de ser adoptado desapareceu completamente, e ainda bem, porque há problemas bem mais difíceis de lidar, como a cor da pele, o racismo,  etc.

 

A minha opinião pessoal, é que o assunto deve ser tratado como algo natural, devemos conseguir mostrar à criança que a adopção é algo normal e que ela é amada da mesma forma, e deve ser algo que cresça com ela. Entendo que quanto mais tarde isto for contado, mais complicado irá ser.

 

Há uns tempos li o livro "Yo soy adoptado", é um livro escrito na Espanha  com 11 histórias de adopção contadas pelos adoptados, em 11, 9 mais tarde ou mais cedo quiseram conhecer os pais biológicos, a curiosidade faz parte de sermos humanos, e acho que é natural que alguém que foi adoptado queira conhecer as suas origens, mesmo que depois sinta que não faz parte daquela historia e não mantenha contactos.

 

Só mais um detalhe, não é possível esconder para sempre o facto de uma criança ser adoptada, na certidão de nascimento que é necessária para o casamento é obrigatório que venha o nome dos pais biológicos, isto para evitar casamentos consanguíneos....

 

Bom, já sabe, quer um filho, vá à casinha, nada de cegonhas nem de Paris ... R. Dixit.

 

JorgeSoares
publicado por Jorge Soares às 19:31
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