Quinta-feira, 27 de Novembro de 2008

Reflexões sobre ter-se sido adoptado

Há algo que sempre causa grande ansiedade quando se fala de adopção: a relação emocional da criança que FOI adoptada com aquilo a - muitas vezes fantasiada - familia biológica. Parece-me até que que é uma fonte de ansiedade generalizada a todos os que ponderam avançar para este processo, ou que já s embrenharam nesta aventura de ser pais. Portanto e porque considero importante diversificar a partilha das experiências e vivências do outro lado do espelho - da criança - hoje insurge-se-me palrar sobr este tema.

 
Começo por afirmar que nunca me pareceu exequível privar com aquilo que -à falta de melhores termos - se apelida de mãe biológica. Na verdade a minha relação emocional com a imagem que construi dela foi desde a revolta a uma postura de não julgamento perante a sua escolha de vida, que foi efectivamente não ficar comigo.
 
Há uns anitos via um filme com o grande Denzel Washington, o "Antoine Fisher" em que a personagem se debatia com a necessidade de confrontar a mãe biológica, procurando perceber o porquê das suas escolhas. Eu acredito que nenhuma resposta que ela me desse poderia apaziguar a minha incompreensão. A paz que sinto em relação à escolha dela e àquilo que ela personifica encontrei-a e encontro todos os dias em que aprendo a gostar demim.
 
Para mim as respostas estão dentro de nós. Acredito que muitos decidem procurar a familia biologica porque nessa busca esperam encontrar um pedaço de si mesmos, do amor próprio que nunca conseguiram construir. É como sempre assumissem aquele papel de criança abandonada, de criança enclausurada no seu mundo estéril de amor e de emoções. E por isso procuram fora aquilo que não conseguem encontrar dentro.
 
Não estou a tecer nenhuma crítica e sublinho que cada caso é um caso. Cada um segue o caminho que consegue para chegar a si mesmo, dispondo das ferramentas que possui.
 
Eu acredito que quando nos sentimos unos e aceitamos verdadeiramente o que somos essa busca deixa de ser necessária. Os laços consolidam-se nos afectos. Mas tudo é um processo. O que, no meu ponto de vista, vocês pais e candidatos a pais podem fazer é munirem os vossos filhos das ferramentas necessárias em vista a estes se tornarem em seres capazes de se amarem a si mesmos. Se estiveram realmente bem e felizes com o que têm, onde estão e com o que são o abraço para onde quererão correr será sempre para o vosso.

 

 

 

Susana

Publicado originalmente no blog http://wakeuplittlesusy.blogs.sapo.pt/

(Susana..e que tal dares um nome ao blog?) :-)

publicado por Missão Criança às 00:44
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Quarta-feira, 19 de Novembro de 2008

Mais uma vez se falta à verdade…ou se distorce a realidade…

crianças

 

Está a decorrer o 1º Congresso internacional sobre a adopção…e este evento deu origem a um conjunto de noticias sobre o estado da adopção em Portugal nos vários meios de comunicação….E tantas poucas verdades se contam…

   

   Vejamos a noticia que saiu no publico e que podem ler na integra aqui

   

   “O Ministro do Trabalho e da Solidariedade Social garantiu hoje que as Listas Nacionais de Adopção, em vigor desde Junho de 2006, tornam processo mais rápido.”

   

   COMO ?

   

   - Se são as próprias técnicas que admitem que não usam a lista. Que entregam as “suas crianças” aos “seus candidatos”.

   - Conhecem alguma técnica das equipas de adopção que afirme que usa a lista nacional como ferramenta de trabalho?

   - Se existem crianças que o seu projecto de vida foi alterado e tal alteração não foi reflectida na lista nacional.

   - Se aos candidato não lhes é dado a conhecer o seu numero de registo na lista nacional, nem o conteúdo do seu registo.

   

   

   “Apesar das Listas Nacionais não serem uma fórmula milagrosa, o ministro Vieira da Silva defende que permitem reforçar as possibilidades de se encontrar candidatos adequados para todas as crianças, e promovem a rapidez das adopções.”

   

   - Então como é que existem crianças que estão há espera um ano ou mais, quando existem candidatos aprovados que estão dispostos a receber estas crianças ? 

 

   - Mas se na lista não consta a etnia da criança e este é um elemento que afasta muito candidatos…Como é que através da lista conseguimos saber se aquela criança A, satisfaz os requisitos dos candidatos B. Mais uma hipocrisia! Ou aceitamos que os candidatos façam restrições à raça/etnia da crianças que querem como filho e colocamos essa informação na base de dados, ou se viola a nossa constituição colocar essa informação numa base de dados, então também viola a nossa constituição permitir que os candidatos façam  essa distinção. 

   

   “Segundo o ministro, as listas nacionais de adopção revelam que a grande maioria dos candidatos (2176 de um total de 2227) pretendem crianças até aos três anos de idade e apenas 407 crianças adoptáveis se encontram nesta faixa etária.”

   

   

   - Bem, alguém não sabe ler os números! O que acontece é que existem 2227 candidatos que aceitam crianças até aos 3 anos. O que é bastante diferente de aceitarem  só até aos 3 anos.  O que acontece é que existem 51 candidatos que apenas aceitam crianças acima dos 3 anos!

   

   “Por outro lado, referiu, apenas 152 candidatos não se importariam de adoptar crianças com pequenos problemas de saúde, embora existam 292 menores com estas características”

   

   - Mas então se existem 152 candidatos que as aceitam…porque continuam 292 crianças por adoptar  e não estão já adoptadas?

 
Patricia Macedo

 

publicado por Missão Criança às 23:35
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Segunda-feira, 17 de Novembro de 2008

Em conversa com a adopção…

Porque o processo de avaliação está a chegar ao fim, e porque tenho lido certos posts e comentários que me desinquietam, vou expressar a minha opinião, pública e abertamente acerca da famosa questão da idade das crianças.


Não tenho por hábito envolver-me em discussões de certos assuntos online, especialmente quando percebo que são um tanto ou quanto polémicas, porque há por ai muito boa gente que como está a comentar sem dar a cara diz o que lhe apetece sem pensar que quem está do outro lado pode estar a falar a sério de um assunto sensível.


Eu penso que opiniões são exactamente isso, meras opiniões, pessoais, divergentes, mas se queremos que as oiçam e percebam, também devemos saber ouvir e respeitar as outras, antes de atirar pedras sem tentar perceber o outro lado. Não quero ser mal interpretada, pois por vezes o simples facto de ser um comentário escrito, pode também levar a falsas e diferentes interpretações, consoante quem lê, mas vou tentar ser o mais clara e sincera possivel.


Ora porque hei-de eu, nós, e muitos outros casais que decidem nobremente adoptar uma criança, ter que justificar ou ser intitulados de egoístas, quando decidimos adoptar uma criança até 3 anos?

Não sou hipócrita, penso que o simples facto de decidir adoptar é um acto de amor e as decisões que cada um faz quanto à criança “desejada” só dizem respeito ao casal em questão, e se assim o decidem é porque com toda a certeza, falaram e pensaram devidamente no assunto, nas consequências das várias opções e em todos ou quase todos os detalhes do processo. Não tenho que me explicar nem às minhas decisões, mas estou cansada de ver críticas em muitos comentários por ai espalhados, e vejo que há alguma falta de compreensão, por isso gostaria de explicar um pouco do meu lado.

 


Falo por mim, por nós casal, que incapacitados de gerar um filho biológico, vemos na adopção a nossa única alternativa. Devo ser recriminada por desejar uma criança mais nova para poder acompanhar o máximo possível do crescimento dela?

 

Obviamente que isto não significa que as crianças mais velhas não mereçam ou não nos dêem o mesmo amor que as outras, porém existem outros casais com características diferentes e objectivos diferentes que muitas vezes até já tem filhos e escolhem crianças com idades acima destas. Devo dizer que as assistentes sociais ou psicólogas tiveram um papel fundamental e foram deveras esclarecedoras, porque nos explicaram exactamente isso, tudo tem a ver com expectativas, e é importante perceber quais são as expectativas do casal, e garantir que estas vão de encontro ao melhor interesse da criança. Nós enquanto casal, ficamos a saber que estamos entre os mais novos, senão os mais novos do distrito. A maior parte dos casais inscritos estão na faixa dos 35 aos 45 anos. E que, quando o casal já tem filhos, muitas vezes já não sente necessidade de experienciar os primeiros passos da criança e desejam crianças mais velhinhas. Mas que no nosso caso e dos casais na nossa faixa etária, que ainda não tem filhos, normalmente são atribuídas crianças mais novas. O facto da maior parte dos casais terem preferência por crianças mais novas, deve-se também ao facto da infertilidade ser a causa número 1 da decisão de inicio do processo de adopção, estes casais que se sentem mutilados pela infertilidade já sofreram que baste e também tem direito de sonhar, vendo na adopção muitas vezes a única “solução”.

O mesmo digo em relação à adopção de crianças de outra raça (que por acaso não colocamos qualquer restrição nesse sentido), mas no entanto fomos aconselhados pelas responsáveis do processo a repensar e ponderar de modo a ter a certeza acerca do assunto. Foram-nos expostas várias questões e situações que surgem com a adopção de uma criança de outra raça, e que apesar de para nós não ser problema, outros casais podem não lidar tão bem com isso. E não podemos tomar uma decisão importante, como é a vida de uma criança de ânimo leve sem pensar nos desafios do futuro. Um casal que não se sinta preparado para isso não é necessariamente racista, e não deixa de ser nobre a decisão de adoptar, só por essa escolha.


CriançaProvavelmente já falei demais, não quero parecer revoltada nem chateada com nada nem ninguém, porém penso que é importante falar destas escolhas e decisões, porque se pode existir uma minoria de pessoas que insensivelmente vêem a adopção como moda ou como uma escolha de prateleira, há outras como eu que vêem nisso um projecto para a vida, que como tal deve ser ponderado ao pormenor.

 


E já que o destino me incapacitou de gerar um filho, porque não hei-de encontrar o meu sonho noutro caminho?

 

Post da Ana, publicado inicialmente no blog Sonhando Acordada

 

PS:Ana, desculpa, mas o SAPO nãp gostou das imagens que tinhas no post e tive de improvisar.

publicado por Missão Criança às 18:56
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Sábado, 8 de Novembro de 2008

Desfazendo mitos 2

criança

 

Uma das questões que me colocam muitas vezes, e que já vi colocada por alguém que já tinha sido aprovado para adopção, é a questão da entrega da criança. A maioria das pessoas acha que um processo de adopção é muito demorado devido às burocracias, na verdade actualmente a maioria dos processos fica concluído dentro do prazo legal de seis meses.  Como já disse aqui, o que faz demorar os processos de adopção é o facto de haver muito mais candidatos para adoptar que crianças em condição de ser adoptadas.

 
Muita gente tem a imagem das crianças que estão num centro de acolhimento, o mito dos coitadinhos sem família, à espera que chegue alguém e os escolha, na realidade isso não acontece, ninguém vai escolher uma criança, as crianças não são mercadorias que estão em exposição.  
 
Quando nos candidatamos colocamos alguns limites: sexo, idade, raça, doenças, quando aparece uma criança que está dentro destes limites, a segurança social fala dessa criança aos candidatos e estes só a conhecem fisicamente após a terem aceite. A forma como é feita a entrega varia de caso para caso, em alguns casos existe um período de alguns dias até que a criança vai viver definitivamente com os pais, noutros nem isso.
 
No nosso primeiro processo ligaram-nos numa terça feira a dizer que queriam falar connosco, vieram cá a casa, falaram do N., após dizermos que sim que o aceitávamos, mostraram-nos uma fotografia e perguntaram se o podiam ir buscar, sem preparação, sem nada, se quiséssemos ficava já connosco.  
 
Como vêem, não há escolhas, estamos a falar de crianças, não de carros, de roupa ou de algo que esteja em exposição,
 
Esta semana soube que entregaram uma criança que estava há três anos à espera de uns pais a uma família que estava há quase três anos à espera de um filho, há algo de muito errado nisto tudo, porquê é que a criança teve que esperar 3 anos se aqueles pais já lá estavam? E como aqueles muitos outros. Para que serve uma base de dados nacional? ela existe mesmo?
 
Post publicado inicialmente no blog : O que é o jantar
Jorge
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publicado por Missão Criança às 21:40
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Sábado, 25 de Outubro de 2008

Desfazendo mitos

Crianças, adopção

 

Existem em Portugal uma serie de mitos relacionados com a adopção, sinto isso cada vez que falo com alguém sobre o assunto, cada vez que recebo um mail de alguém e mesmo de muitos dos comentários que me deixam aqui ou no nos adoptamos, o mais incrível é que mesmo muitas das pessoas que passam pelo processo de avaliação continuam a acreditar nesses mitos.... e a alimentá-los.

 
No outro dia recebi um mail de uns alunos de uma escola secundária do Porto a pedir ajuda para um trabalho sobre adopção, após uma troca de mails sobre a minha disponibilidade para os ajudar, enviaram-me uma serie de perguntas que eu tentei responder o melhor que sabia. A maior parte dessas perguntas reflecte isso mesmo, os mitos, aquilo que as pessoas acham sobre a adopção e os processos de adopção e que não tem nada a ver com a realidade. 
 
Eu não gosto de posts largos e o tema os mitos da adopção em Portugal  dá pano para muitas mangas, pelo que o assunto será tratado em vários posts, vamos lá à primeira pergunta:
 
1 - Porquê que há tantas crianças para adoptar?
 
Na verdade não há muitas crianças para adoptar, há poucas, durante o ano de 2007 foram adoptadas em Portugal pouco mais de 500 crianças, o numero de crianças em condição de ser adoptada anda à volta disto, 500 crianças por ano. Existem em Portugal mais de 11000 crianças em instituições, mas estas crianças não são para adopção, uma criança só vai para adopção quando o seu projecto de vida é definido para isso, e isto só acontece quando a família ou família alargada (avós, primos, tios) passa mais de seis meses sem aparecer na instituição ou mostrar interesse pela criança.
 
Reparem bem, basta que alguém faça um telefonema para a instituição cada seis meses para que a criança passe a vida inteira sem uma família. A ideia de que existem muitas crianças para adoptar é errada. Na verdade existem muitos mais candidatos, mais  de 3000, que crianças.
 
O principal motivo para que as pessoas tenham que esperar anos até poderem ter um filho, é porque na realidade não há crianças para adoptar, isso e o facto de 90% dos candidatos quererem crianças brancas até três anos de idade. Também é verdade que existem algumas crianças que estão em condições de serem adoptadas e não há candidatos para elas, principalmente quando se trata de dois ou mais irmãos e de crianças com mais de 7 anos, mas são uma pequena minoria.
 
Post Publicado inicialmente no blog O que é o jantar
Jorge
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publicado por Missão Criança às 22:59
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Domingo, 19 de Outubro de 2008

A espera:Oficialmente....à espera!

Adopção de crianças

 

Hoje foi finalmente o dia da primeira entrevista, na altura achamos um pouco estranho que em Julho marcassem a entrevista para Outubro,  agora não parece assim tão estranho, desta vez tinham feito mesmo o trabalho de casa, a psicóloga é a mesma do primeiro processo e lembrasse muito bem de nós. Para nosso espanto despacharam hoje todo o processo, as 3 ou 4 entrevistas habituais, ficaram resumidas a esta, duas horas de conversa franca e agradável encerraram o assunto. Teremos que esperar que chegue o bendito certificado de aprovação, mas segundo elas já estamos na lista....resta portanto esperar que algures apareça a nossa menina.

 
Evidentemente não vou contar aqui tudo o que se falou, na realidade falou-se mais de adopção, de candidatos e de crianças, que de nós e do nosso processo. Ficamos a saber que para as nossas condições o tempo de espera poderá ir até dois anos, evidentemente existem muitíssimos candidatos à nossa frente, só que segundo elas, 95% desses candidatos querem exclusivamente crianças brancas até 3 anos, não há candidatos que aceitem crianças de cor, o que nos coloca imediatamente no topo da lista, nós não colocamos restrição de raça.
 
Há sempre coisas que causam aflição quando se fala destes temas, o racismo das pessoas, a discriminação, as famosas listas nacionais que afinal não existem, mas sobretudo, as crianças devolvidas, sim, porque há quem devolva crianças..... haverá coisa mais cruel que abandonar novamente uma criança que iniciou  a sua vida sendo abandonada? mas disto, falarei outro dia... somos um país de gente racista e sem escrupulos....sem dúvida.
 
 
Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...
 
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...
 
Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar...
 
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar...
 
Alberto  Caeiro
In Guardador de rebanhos
 
Post publicado no dia 9 de Outubro no blog O que é o Jantar
 
Para assinar a petição pela instituição do dia nacional da adopção, por favor vão aqui: Assinar petição
 
Jorge Soares
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publicado por Missão Criança às 21:20
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Quinta-feira, 9 de Outubro de 2008

Queríamos tanto ter um Pai e uma Mãe

Criança
Imagem retirada da internet
 
 
Olá,

Resolvemos escrever-te porque sei que desejas muito ter um filho.

Não, nós não somos o bebé com que tu sonhas..

 Já não usamos fraldas, não comemos papas…mas ainda somos crianças …. e queríamos tanto ter um papá e uma mamã.

O homem com quem vivíamos era alcoólico e batia na mulher.

Já não nos lembramos bem, dizem que era a nossa mãe e que um dia se fartou e foi-se embora. Ficamos sós.. e ficar sozinhos no mundo, com a nossa idade, é muito triste.

Vivemos desde essa altura numa casa bonita, com muitos meninos e meninas e há muitas senhoras muito simpáticas que tomam conta de nós.

Mas continuamos a sentirmo-nos sós… não temos um papá nem uma mamã…. e  queríamos tanto…

Nós sabemos, não somos o bebé com que tu sonhas….

Mas sabes? Nós também somos como tu. Também sonhamos.

Sonhamos que um dia vamos ter uma mamã que nos vai ajudar a escolher a roupa que vamos vestir, que nos vai levar á escola, que nos vai contar histórias, aconchegar os cobertores e dar-nos um grande beijinho de boa noite…

Sonhamos que um dia vamos ter um papá que vai andar connosco de bicicleta e nos vai ver no torneio de futebol da escola… e… vamos ser tão felizes!!

Quando isso acontecer...

vamos deixar de chorar porque os nossos colegas vão deixar de nos gozar porque não temos papá nem mamã,

vamos deixar de chorar quando nos aleijamos porque a nossa mamã vai dar-nos um beijinho na ferida e vai passar logo,

vamos deixar de chorar quando um colega mais velho nos bater porque vamos ter um papá para nos proteger,

vamos deixar de chorar quando encontrarem papás para os meninos mais pequeninos..porque já não vamos estar aqui, porque…. vamos ter a nossa família…e vamos dizer eu tenho um papá e uma mamã.

Tenho 9 anos, e o meu irmão 7,  mas ainda somos crianças, não somos?

Nós sabemos, não somos o bebé com que tu sonhas…

Mas se conheceres alguém que queira ser a nossa mamã ou o nosso papá, escreve-nos.
 
Este texto chegou-me por email, é o pensamento de dois irmãos que estão numa instituição, é uma carta real. Acha que lhes pode dar uma resposta?, que tem amor para lhes dar?, o meu mail está no perfil, envie-me um mail, eles precisam de um pai ou uma mãe.
 
Não há palavras para algo assim.
 
Jorge Soares

 

publicado por Jorge Soares às 14:20
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Sexta-feira, 3 de Outubro de 2008

Queria ser escolhido ....

Criança

 

Acordo bem cedo, mas gosto de ficar ali na cama a olhar para aquele espaço cheio de pessoas, e vazio de memórias... "Será que é hoje?" Não sei quem me ensinou esta frase, esta pergunta, mas sei-a de cor, repito-a todas as manhãs. A verdade é que não sei ainda acredito que o "hoje" pode chegar. "Será?"


Vivo nesta casa há 11 anos, no total dos meus 12. Tenho os colegas, as pessoas que cuidam de mim, a minha escola, mas... Falta-me algumas coisas. Queria um quarto só meu com coisas compradas para mim... Queria alguém se preocupasse realmente comigo, com as minhas notas e que parasse com a sua labuta só para me ouvir contar o que se passou no meu dia. Queria uma festa de anos, com bolo e presentes, com amigos, e quem sabe até com um palhaço? Queria poder jantar à mesa onde se contavam as novidades, historias e ensinamentos. Queria que me ajudassem a fazer os trabalhos da escola, que me ensinassem a andar de bicicleta, a construir pequenas coisas e a jogar à bola... Queria aprender o significado de preocupação, e de carinho. Queria saber o significado da palavra família, e o poder de um abraço. Queria tanto uma historia contada ao deitar, um abraço e um beijo de boa noite...

Sonho acordado com tudo isto, vejo-me a correr, a brincar e a sorrir num jardim grande de um casa bonita. Mas cada vez que apresentam o meu processo a um casal  vem o comentário, "Ele não, que é grande demais, queremos uma criança pequenina..." Nunca a ouvi é verdade, mas imagino que acontece. Os meninos pequeninos vão entrando e saindo, e eu vou ficando vendo aquele transito. Já pensei que ser um bom menino ajudaria, mas fui percebendo que não influencia, sou apenas grande demais... Agora vou ficando aqui até que um dia decidam o meu futuro.

Cátia Azenha

Texto de ficção publicado inicialmente no blog Ticho


publicado por Missão Criança às 10:28
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Quinta-feira, 2 de Outubro de 2008

Saudades de quem ainda não conhecemos...

Criança

 Imagem retirada da internet

 

Poucas vezes me recordo do que sonho. Esta noite no entanto, foi diferente.
“Esta noite sonhei com o meu filho. Sonhei que tinha recebido aquela tão aguardada chamada da Segurança Social, e que nos tinha sido proposto um menino de 4 anos. Aceitámos logo, e nesse mesmo dia poderíamos ir buscá-lo ao centro de acolhimento onde ele estava.


Chegámos a casa e contámos à F. e ao A. Ficaram radiantes... Arrumámos o quarto para os rapazes, pusemos lá uma cama nova, passámos na loja para comprar uma cadeira nova para o carro, numa outra comprámos um carrinho de brincar, que embrulhámos com um grande laço azul. Os 4 fomos então buscar o nosso novo mano.


Lá tudo foi muito rápido. O nosso “mano” aguardava-nos sentado num sofá. Sorriu com um sorriso do tamanho do mundo e chamou-me imediatamente de “Mãe”. Abraçámo-nos e viemos todos para casa. Ele nada quis trazer de lá. Queria vir para a casa nova sem nada que lhe recordasse o passado. Lembro-me de pensar que era uma ideia muito avançada para os seus tenros 4 anos.


À saída, vários meninos ficaram com ar choroso a olhar-nos do portão... Fiquei devastada. Apeteceu-me trazê-los todos para casa. Mas não podia...”


Acordei a chorar convulsivamente.
Este sonho foi em tudo diferente dos outros que costumo ter, principalmente pelos pormenores que recordo tão bem.


Acordei com o som do meu próprio choro, as lágrimas a escorrer pela cara, estava angustiada, triste, com tantas e tantas saudades daquele que ainda nem conheço. Nem sei explicar ao certo porque chorava. Ainda só tenho 2 meses de espera, e sei que este é um tempo de incertezas. Pode durar mais uns dias, uns meses, uns anos. Mas no meio desta incerteza, o que me faz doer muito mais o espírito, a alma, o coração de mãe, é o saber que o meu filho ou a minha filha já nasceu, já está por aí, poderá ser uma daquelas crianças de lágrimas nos olhos que eu vi ao portão, observando-me suplicantes. Ansiosas por uma família.


Não sei se tem olhos ou cabelos castanhos ou pretos. Se será menino ou menina. Alto ou baixo. Tímido ou reguila. Não sei se me vai adoptar logo no primeiro olhar ou se nos iremos conquistar pouco a pouco. Não sei se gosta mais de bifes com batatas fritas ou salsichas com esparguete.


Sei que o amo já muito, e que já choro por ele. Sei que já gerimos o espaço em casa a contar com a sua chegada. Sei que o carro novo foi comprado porque este modelo tem mais espaço para as 3 cadeiras no banco de trás. Sei que não sei entender como amo tanto alguém que não conheço...


É esta a dor da espera. É esta a ansiedade que os pais grávidos de coração têm de gerir. A gravidez que não se vê, que não se consegue medir.
 

Sofia

publicado por Missão Criança às 10:33
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Terça-feira, 23 de Setembro de 2008

Escritos precisam-se

Criança

Imagem retirada da internet

 

Criei este blog em resposta aos comentários e emails que fui recebendo cada vez que escrevo sobre adopção no meu O que é o jantar. A ideia é que este seja um espaço de partilha, de troca de experiências, troca de ansiedades, de medos, de alegrias e tristezas. Tenho tentado manter o blog activo, mas está claro que é uma tarefa árdua, por muito que eu queira não consigo ter tema todos os dias.

 

Bom, eu preciso de ajuda, imagino que muitas das pessoas que cá vem tem histórias para contar, experiências para partilhar, pontos de vista para discutir, que tal partilhar com todos?. Eu passei por um processo de adopção numa altura em que não havia informação em lado nenhum, em que não havia ajuda de ninguém nem ninguém com quem partilhar e discutir, agora as coisas são  um bocadinho diferentes, mas não muito, acho que há muito por fazer e muito por melhorar... mas sozinho não vou lá.

 

Deixo um apelo e um convite a todos para que participem no blog, enviem-me um email para jfreitas.soares@sapo.pt ou deixem um comentário com o vosso email de modo a acertarmos a melhor maneira.

 

De todo coração, obrigado por passarem por cá e se possível, por participarem

Jorge Soares

publicado por Jorge Soares às 10:19
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Segunda-feira, 22 de Setembro de 2008

Conseguimos medir o amor?

Crianças

imagem retirada da internet

 

A semana passada recebi um email de alguém que é candidato à adopção, um casal com filhos biológicos que decidiu adoptar. Entre outras coisas havia a confissão de um receio, o receio de não se conseguir gostar da criança que irão adoptar da mesma forma que gostam dos filhos biológicos. Na verdade não é a primeira vez que ouço alguém confessar este medo, é uma questão comum a alguns dos emails que vou recebendo.

 

Curiosamente, a primeira vez que alguém me falou disso foi ao contrario, no primeiro encontro nacional de adopção que foi organizado em Setúbal, uma mãe adoptiva dizia-me que tinha medo de engravidar e ter um filho biológico, porque ela não sabia se alguma vez poderia amar outro filho tanto como amava aquele filho adoptivo.

 

Não há uma resposta fácil para estas questões, as pessoas sabem que tenho um filho adoptivo e uma filha biológica e tentam saber o que sinto. É claro que amo os meus dois filhos, são ambos meus filhos, mas gosto dos dois da mesma forma? Não, claro que não, eles são duas crianças completamente diferentes, com comportamentos diferentes, com atitudes diferentes, e nós como humanos gostamos de pessoas diferentes de forma diferente. Amo mais um que outro? Não, mas é claro que tenho mais afinidades com um que com outro. Mas isso não tem nada a ver com um ser adoptado e outro biológico, tem a ver com a minha capacidade de me relacionar mais facilmente com umas pessoas que com outras, e os meus filhos não são excepção.

 

Curiosamente cá em casa, a minha filha é mais apegada ao pai e o meu filho é mais apegado à mãe, pelo que as coisas estão equilibradas.

 

Resumindo, este é um receio comum à maioria dos pais adoptivos, um receio que de uma forma ou de outra todos superamos, pois basta ver o sorriso de uma criança, o sorriso dos nossos filhos, para percebermos que não há como não os amar.

 

Não, não conseguimos medir o amor!

 

Post publicado originalmente no blog O que é o jantar

 

Jorge

publicado por Jorge Soares às 12:13
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Segunda-feira, 28 de Julho de 2008

A espera:Dia zero

Ma0s

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Ontem foi o dia zero, dia da entrega da documentação na Segurança Social, é curioso, passaram 10 anos desde que iniciamos o primeiro processo de adopção, mas por incrível que pareça, pouco mudou. O local é o mesmo, e ainda que a P. tenha achado que as coisas melhoraram, a mim pareceram-me ... iguais, nem mais nem menos, exactamente iguais. Como é natural, nós mudamos, 10 anos é muito tempo nas nossas vidas, agora não há a ansiedade do primeiro filho, nem a angustia de enfrentar o desconhecido.... agora somos espertos nisto e sabemos o que aí vem.

 

Como dizia, há coisas que não mudam, e o atendimento no serviço publico não muda mesmo, nunca. Chegamos e não havia ninguém para receber as pessoas, e ficamos à espera no patamar da escada, nós e mais 4 ou 5 pessoas que soubemos depois iam a uma reunião, entretanto as funcionárias passavam, viam a aglomeração de gente no patamar..e nem agua vai, nem agua vem.....

 

Por fim, alguém achou estranho a aglomeração de gente no patamar da escada e veio perguntar... depois de encaminhar as pessoas para a sala de reuniões e de perguntar ao que íamos, lá foi avisar que lá estávamos..e continuamos à espera, e entretanto, servíamos de recepcionista e íamos enviando as pessoas que iam chegando atrasadas para a tal reunião....finalmente 20 minutos depois da hora.. lá fomos atendidos. Eu sou pontual, sempre, e claro que me irrita que o mundo não o seja.... mas sei, que neste caso tenho que ferver para dentro... porque a verdade é que estamos nas mãos delas..e não há para donde reclamar.

 

Entregues os documentos, resta-nos esperar, o estado tem seis meses para fazer a avaliação, e utiliza-os até ao ultimo dia, as desculpas são as mesmas de há 10 anos atrás, elas tem muito que fazer... mas vá lá, desta vez temos o numero do processo desde o primeiro dia.

 

A espera

 

Deito-me tarde
Espero por uma espécie de silêncio
Que nunca chega cedo
Espero a atenção a concentração da hora tardia
Ardente e nua
É então que os espelhos acendem o seu segundo brilho
É então que se vê o desenho do vazio
É então que se vê subitamente
A nossa própria mão poisada sobre a mesa

É então que se vê o passar do silêncio

Navegação antiquíssima e solene

 

Sophia de Mello Breyner

 

Este texto foi publicado inicialmente no Blog O que é o jantar no dia 12 de Junho de 2008

 

Jorge Soares

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Domingo, 6 de Julho de 2008

Os Olhos do nosso filho

Criança

 

Ontem recebi no meu email este poema que foi escrito por alguém que está a passar por um processo de adopção, alguém que espera e desespera por um filho, alguém que tem muito amor para dar.
 

Os olhos do nosso filho

Os olhos do nosso filho
São ainda de cor incerta
Não sei sequer se existem
Vão ser de Deus uma oferta

Existem na minha alma
Cravados no meu semblante
Os olhos do nosso filho
Que teve nascer errante

Foste esculpido a preceito
Nas entranhas de outro ser
Não vais sorver do meu peito
Este meu longo querer

E nestas voltas da vida
Cuidou-te Deus sem saber
Para que não herdes no sangue
Este meu estéril sofrer

Não vais nascer de mim
De outro ventre virás
Mas filho da minha alma
Tão amado serás!

E nesta triste incerteza
Me pergunto em desalento
Já nascente de alguém?
Ou é Deus que te traz?

Ala dos Reis


A dor de se querer ter um filho e não se conseguir é algo que não se consegue explicar, de inicio vamos tendo desilusões, depois começa o sofrimento, ver passar o tempo, ouvir as pessoas a perguntar:

-Então, é para quando?
-Quando vamos ter um neto?
-Então, e filhos?

Respondemos às pessoas com um sorriso de circunstância e sofremos em silêncio. lembro-me de ir pela rua, olhar os casais com bebés e pensar: E eu? porque é que eu não tenho direito?. Chega uma altura em que começa a ser doloroso ver crianças na rua. E depois há as expectativas das pessoas que estão à nossa volta, as lágrimas em casa cada vez que aparece um novo período , as lágrimas em silêncio na nossa solidão. Com o tempo, os meses transformam-se em anos e a tristeza em resignação. Nós decidimos que não íamos continuar com dor, e não íamos seguir a via sacra dos tratamentos, decidimos partir para a adopção.

No fundo, mudamos a expectativa, as coisas deixam de depender de nós e passam a depender de outras pessoas, processos longos, morosos, complicados, muitas vezes inumanos ...e novas expectativas, e novas esperas. O Poema traduz um pouco do que é querer ser pai adoptivo, traduz a espera desesperante por um telefonema, por uma noticia, saber que o nosso filho poderá estar neste momento nos braços de alguém. Cada pessoa é diferente, mas atrevo-me a dizer que os pensamentos são comuns..será que o meu filhos já nasceu?..será que está bem?, será .......

Eu sou uma pessoa que não crio expectativas da vida, a maior parte do tempo limito-me a viver, um dia de cada vez, só crio expectativas com as pessoas, por norma entrego-me de alma e coração às pessoas de quem gosto...e dos meus filhos.

Sei que uma boa parte dos leitores chegam ao blog à procura de informação sobre adopção, a todos eles, a todos os que estão, ou vão passar por isto, deixo uma palavra de carinho e  de força, não desistam, não deixem de acreditar.

Jorge
PS:Imagem retirada da internet
PS2.Este texto foi publicado inicialmente no blog O que é o jantar
publicado por Jorge Soares às 21:33
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