Segunda-feira, 17 de Novembro de 2008

Em conversa com a adopção…

Porque o processo de avaliação está a chegar ao fim, e porque tenho lido certos posts e comentários que me desinquietam, vou expressar a minha opinião, pública e abertamente acerca da famosa questão da idade das crianças.


Não tenho por hábito envolver-me em discussões de certos assuntos online, especialmente quando percebo que são um tanto ou quanto polémicas, porque há por ai muito boa gente que como está a comentar sem dar a cara diz o que lhe apetece sem pensar que quem está do outro lado pode estar a falar a sério de um assunto sensível.


Eu penso que opiniões são exactamente isso, meras opiniões, pessoais, divergentes, mas se queremos que as oiçam e percebam, também devemos saber ouvir e respeitar as outras, antes de atirar pedras sem tentar perceber o outro lado. Não quero ser mal interpretada, pois por vezes o simples facto de ser um comentário escrito, pode também levar a falsas e diferentes interpretações, consoante quem lê, mas vou tentar ser o mais clara e sincera possivel.


Ora porque hei-de eu, nós, e muitos outros casais que decidem nobremente adoptar uma criança, ter que justificar ou ser intitulados de egoístas, quando decidimos adoptar uma criança até 3 anos?

Não sou hipócrita, penso que o simples facto de decidir adoptar é um acto de amor e as decisões que cada um faz quanto à criança “desejada” só dizem respeito ao casal em questão, e se assim o decidem é porque com toda a certeza, falaram e pensaram devidamente no assunto, nas consequências das várias opções e em todos ou quase todos os detalhes do processo. Não tenho que me explicar nem às minhas decisões, mas estou cansada de ver críticas em muitos comentários por ai espalhados, e vejo que há alguma falta de compreensão, por isso gostaria de explicar um pouco do meu lado.

 


Falo por mim, por nós casal, que incapacitados de gerar um filho biológico, vemos na adopção a nossa única alternativa. Devo ser recriminada por desejar uma criança mais nova para poder acompanhar o máximo possível do crescimento dela?

 

Obviamente que isto não significa que as crianças mais velhas não mereçam ou não nos dêem o mesmo amor que as outras, porém existem outros casais com características diferentes e objectivos diferentes que muitas vezes até já tem filhos e escolhem crianças com idades acima destas. Devo dizer que as assistentes sociais ou psicólogas tiveram um papel fundamental e foram deveras esclarecedoras, porque nos explicaram exactamente isso, tudo tem a ver com expectativas, e é importante perceber quais são as expectativas do casal, e garantir que estas vão de encontro ao melhor interesse da criança. Nós enquanto casal, ficamos a saber que estamos entre os mais novos, senão os mais novos do distrito. A maior parte dos casais inscritos estão na faixa dos 35 aos 45 anos. E que, quando o casal já tem filhos, muitas vezes já não sente necessidade de experienciar os primeiros passos da criança e desejam crianças mais velhinhas. Mas que no nosso caso e dos casais na nossa faixa etária, que ainda não tem filhos, normalmente são atribuídas crianças mais novas. O facto da maior parte dos casais terem preferência por crianças mais novas, deve-se também ao facto da infertilidade ser a causa número 1 da decisão de inicio do processo de adopção, estes casais que se sentem mutilados pela infertilidade já sofreram que baste e também tem direito de sonhar, vendo na adopção muitas vezes a única “solução”.

O mesmo digo em relação à adopção de crianças de outra raça (que por acaso não colocamos qualquer restrição nesse sentido), mas no entanto fomos aconselhados pelas responsáveis do processo a repensar e ponderar de modo a ter a certeza acerca do assunto. Foram-nos expostas várias questões e situações que surgem com a adopção de uma criança de outra raça, e que apesar de para nós não ser problema, outros casais podem não lidar tão bem com isso. E não podemos tomar uma decisão importante, como é a vida de uma criança de ânimo leve sem pensar nos desafios do futuro. Um casal que não se sinta preparado para isso não é necessariamente racista, e não deixa de ser nobre a decisão de adoptar, só por essa escolha.


CriançaProvavelmente já falei demais, não quero parecer revoltada nem chateada com nada nem ninguém, porém penso que é importante falar destas escolhas e decisões, porque se pode existir uma minoria de pessoas que insensivelmente vêem a adopção como moda ou como uma escolha de prateleira, há outras como eu que vêem nisso um projecto para a vida, que como tal deve ser ponderado ao pormenor.

 


E já que o destino me incapacitou de gerar um filho, porque não hei-de encontrar o meu sonho noutro caminho?

 

Post da Ana, publicado inicialmente no blog Sonhando Acordada

 

PS:Ana, desculpa, mas o SAPO nãp gostou das imagens que tinhas no post e tive de improvisar.

publicado por Missão Criança às 18:56
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7 comentários:
De António Manuel Dias a 18 de Novembro de 2008 às 00:40
Por duas vezes dizes no artigo que adoptar é um acto nobre. Não é. É um acto egoísta de quem quer ser pai ou mãe e escolhe esse caminho. Esse é certamente o vosso caso, que chegaram à adopção por via da vossa infertilidade, mas é também o caso de qualquer outro adoptante. Não se pode ser pai nem mãe por ter pena do filho e desconfio que uma das maiores causas de insucesso na adopção é mesmo a dos pais que esperam algum tipo de agradecimento dos filhos por os terem adoptado.

Estou de acordo quando dizes que cada pessoa tem o direito a ter uma opinião sobre a idade da criança que se sente preparada para adoptar, embora ache que a maior parte dos motivos apresentados (mas não todos) por quem coloca limites de idade são baseados em mitos sem nenhum fundamento. No entanto, discordo completamente quando comparas isso à escolha da cor da pele ou dos traços fisionómicos da criança. Esta escolha é feita com uma única base: preconceito. Não há qualquer diferença entre uma criança com traços europeus ou africanos, asiáticos, etc., para além do aspecto, e os desafios colocados pela sociedade numa adopção deste género não serão muito diferentes dos colocados simplesmente pelo facto de ser uma adopção. Isto para não falar de outros, como o facto de se ser gordo ou usar óculos ou ser homossexual, que são uma possibilidade em aberto para qualquer criança. Se não se está preparado para se enfrentar o desafio de ter uma criança assim -- criança normal, mas diferente de nós --, não se está preparado para ser pai.

Finalmente, um aviso em relação às expectativas: dado o leque de variação incrível observado na nossa espécie, é praticamente certo que, a não ser que sejam bastante generalistas (como esperar que a criança seja saudável), irão ser defraudadas.
De Ana a 20 de Novembro de 2008 às 14:52
Olá António,

Obrigada pelo teu comentário. Não espero qualquer tipo de agradecimento da criança que adoptar, quero muito ser mãe, não posso ter filhos e sempre vi a adopção como um objectivo futuro. Ser mãe e pai é um acto egoista? não me parece que o seja, mas é apenas a minha opinião.

Quanto à questão do preconceito, concordo plenamente contigo e com os outros comentários, existe muito preconceito não só em relação à cor, como em relação a tantas outras coisas. Eu própria involuntáriamente já tenho tido atitudes que mais tarde analiso como um pouco preconceituosas. Mas no caso da adopção a única restrição feita por nós foi mesmo apenas a idade e a saúde.

Em relação às expectativas, para evitar que sejam defraudadas, tento não criar muitas, mas inevitavelmente acabamos por ter algumas, ou pelo menos pensar como será a criança que está no meu destino.

Aguardo pacientemente...
De António Manuel Dias a 20 de Novembro de 2008 às 21:41
Só para precisar o sentido de egoísta no meu comentário. Não é ser mãe ou pai que é um acto egoísta, é querer sê-lo, por que é a expressão de um desejo próprio íntimo. Depois o resultado (ser mãe ou pai) já não é um acto egoísta, pelo contrário, é a própria definição de altruísmo, colocando o interesse de outros, os filhos, à frente dos seus.
De Maria João a 18 de Novembro de 2008 às 17:34
Ana,

Não penso como tu na generalidade mas concordo que temos de nos respeitar uns aos outros.

Adopção, um acto nobre? Não, não é.
Comparar a idade das crianças com a cor da pele, para mim é bem diferente. Quem deseja um bebé e diz não ser racista, porque não dizer às técnicas que quer um bebé apenas? Nós sabemos que não é isso que acontece. Não querer uma criança acima dos 3 anos está a maior parte das vezes ligado ao desejo de ter um bebé. Não querer uma criança de outra cor está ligado ao PRECONCEITO. Não há outra palavra para utilizar.
Claro que cada um é que toma as suas decisões e cada um é que tem de viver com as consequências das suas decisões mas estou cansada de ouvir que há quem não adopta uma criança de outra cor, não por causa de si próprio mas por causa dos outros. Os outros, os outros e mais os outros.
Quando casámos ou decidimos não casar, perguntámos aos outros o que achavam? Quando alguém engravida, antes pergunta aos outros o que é que acham disso? Não, em geral ninguém pergunta.

Muitas vezes penso que impacto, um dia, terá nas minhas filhas lerem textos que correm pela internet em que a cor da pele é discutida quando está em causa amar um filho.

Estamos a falar de MELANINA.

Sempre que leio algo sobre este assunto, penso: como vou preparar as minhas filhas para isto?

Não te critico em particular (foste clara ao dizer que não fazes esta restrição) mas ajuda-me: como preparo as minhas filhas para um país em que as próprias técnicas vos disseram para pensar melhor no assunto. Em qual assunto? Na MELANINA?????
Só indo a um dermatologista para ficarmos todos, de uma vez, bem esclarecidos.

Felicidades para o teu processo.

Maria João
De Ana a 20 de Novembro de 2008 às 14:41
Olá Maria João,

Obrigada pelo teu comentario. Eu percebo e concordo com o que dizes, inclusivamente com a designação de preconceito, não é o meu caso, mas sei que é o caso de muitos casais que se increvem para adopção.

E as técnicas mencionaram isso, quando nos falaram de espectativas, pois (segundo elas) já tiveram vários casos em que os casais não colocam restrições, e posteriormente se mostraram menos "felizes" com a criança atribuida.

O que pessoalmente acho que é inadmissível. QUando tomamos a decisão de adoptar, devemos estar conscientes do que vamos fazer e saber se estamos realmente preparados para isso, não consigo entender como podem existir pessoas que conseguem fazer esse tipo de destinções.

Infelizmente ainda existe muito preconceito neste mundo, não só com a questão da Melanina, mas também com tantas outras coisas.

Há muitas barreiras a ultrapassar...
De Cristina a 18 de Junho de 2009 às 08:24
Finalmente escrevo neste site.
Muitas vezes recorri às v/ histórias para "ouvir" falar dum tema que tem preenchido a minha vida mas que não gosto de conversar com os outros ... por ser privado ... e porque realmente não sinto necessidade da aprovação de ninguém (com excepção do meu marido).

Quando iniciamos o processo de adopção exprimimos as nossas expectativas (tal como qualquer Mãe ou Pai quando pensa conceber) e tentamos ser o mais verdadeiros nos nossos sentimentos sem interferencias do politicamente correcto ... era do nosso filho que estavamos a falar.
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Finalmente escrevo neste site. <BR>Muitas vezes recorri às v/ histórias para "ouvir" falar dum tema que tem preenchido a minha vida mas que não gosto de conversar com os outros ... por ser privado ... e porque realmente não sinto necessidade da aprovação de ninguém (com excepção do meu marido). <BR><BR>Quando iniciamos o processo de adopção exprimimos as nossas expectativas (tal como qualquer Mãe ou Pai quando pensa conceber) e tentamos ser o mais verdadeiros nos nossos sentimentos sem interferencias do politicamente correcto ... era do nosso filho que estavamos a falar. <BR><BR class=incorrect name="incorrect" <a>Sabiamos</A> que estavamos a falar de expectativas ... que mais se pode falar na fase "grávida"! <BR><BR>Quanto há Melanina! <BR><BR>Nós pusemos restrições porque queriamos "disfarçar" a questão da adopção no futuro ... mas a vida tem sempre a sua piada ... apresentaram nos a nossa bebé branca, loira e de olhos verdes. A piada está que nós somos tipticamene portugueses ... tez escura, cabelos negros e olhos negros. <BR><BR>Não disfarçamos nada e agora que nos inscrevemos para o 2º filho temos a certeza que as espectativas não passam disso... e amar um filho é amar tudo o que ele é. <BR><BR>Ser Mãe e Pai é TUDO. As exepcativas são grandes mas realidade é melhor e diferente do sonho. Ainda bem! <BR><BR>Um conselho: se querem adoptar sejam verdadeiros com os vossos sentimentos e não tenham receio de querer tudo para o v/ filho.
De Maria Eugénia Pinto a 20 de Novembro de 2008 às 11:44
Olá Ana
Claro que todos nós temos direito ás nossas escolhas, ás nossas opções!
Conheço um casal que por terem tb um problema de infertilidade decidiram adoptar. Ainda não existiam as "famosas" listas nacionais. Como queriam um bébé, loiro de olhos azuis e completamente saudável, resolveram tratar do processo num distrito fora do seu de residência (tinham uma casa nesse distrito). Estiveram pouco tempo á espera, realmente. E foi-lhes entregue um bébé com 6 meses, lindíssimo que, se se olhasse com atenção era bastante parecido com o pai!
Ficaram felicissimos (toda a família e amigos tb) e o menino foi crescendo.
Não sei precisar quanto tempo depois (mas já com a adopção definitiva) começaram a reparar em algo estranho na criança... Muitos exames... Autismo profundo!
O que eu quero dizer com toda esta história é que as nossas escolhas são as nossas escolhas... temos todo o direito a elas mas, será que são as acertadas?
Relativamente à adopção será que é preciso escolher tanto... Já referi várias vezes que uma criança é uma criança. Indepententemente do sexo, idade, cor da pele, saúde....
Quando eu e o meu marido decidimos adoptar, a única escolha que fizémos foi o sexo... gostávamos que fosse uma menina porque já tinhamos um rapaz (biológico). A idade para nós era indiferente, bem como a cor da pele. Aquilo que as assistentes sociais nos disseram é que relativamente á idade achavam que deveria ser mais nova que o nosso filho... pela experiência delas! Tudo bem!
E, foi se calhar por as nossas esolhas serem tão abrangentes que, desde a inscrição até à entrega da criança, o nosso processo demorou cerca de um ano e meio!
Beijo


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