Sexta-feira, 20 de Junho de 2008

Quando os bebés vem da casinha e não de Paris

 

Quando trouxeram o N., a R. tinha 18 meses, era uma criança precoce, não tivemos uma única cena, não mudou, não passou a fazer birras, adoptou o mano com a mesma velocidade que o mano adoptou a mãe. É claro que durante uns tempos cada vez que tínhamos alguma visita com bebés, sentíamos que ela ficava na expectativa se aquele também ia cá ficar em casa ou se ia embora com os pais.... afinal, para ela tinham chegado uns adultos um dia com um bebé e foram-se embora sem ele.

 

Quando temos uma criança  com 18 meses e outra com um ano não há muito a explicar, as coisas simplesmente vão acontecendo. Uma das perguntas que as pessoas me fazem mais vezes é, como é que se conta a uma criança que ela  é adoptada?, será que devemos contar?, quando?, e porquê? então e se já existirem filhos biológicos?, como é que lhes contamos a eles?

 

É evidente que para estas coisas não há receitas, cada caso é um caso, cada criança é diferente de todas as outras, e a maneira como os pais encaram o assunto também varia. Existem pessoas que se resistem a contar, ainda há pouco tempo uma das professoras dos meus filhos veio falar com a minha mulher porque tinha uma criança com 7 ou oito anos que era adoptada e não o sabia, os pais não queriam contar e ela não sabia como lidar com a situação.

 

No nosso caso não era fácil esconder, entre uma criança loira e outra mulata não há como esconder, mas tenho a certeza que teríamos agido da mesma forma se fossem ambos mulatos ou ambos loiros, nós simplesmente fomos dizendo as coisas de forma natural e à medida que eles vão crescendo nós vamos acrescentando detalhes.

 

Começamos por explicar à R. que o N. estava numa casinha, porque os pais não podiam cuidar dele e portanto nós ficamos pais dele, a historia da casinha foi-os acompanhando e passou a ser uma coisa natural, tão natural que um dia tinha a R. 3 ou 4 anos, aconteceu que estávamos a ter uma conversa com alguém que  dizia que ter filhos era muito complicado, e problemático, não se sabia se era menino ou menina, depois os quartos, as camas..... e ela vira-se para a pessoa e diz:

 

-Não, isso não é problema, vais à casinha, escolhes o menino e já está, assim não tens esses problemas todos!

 

Com o tempo eles foram crescendo e as coisas foram evoluindo, até ao ponto que o N. quis ir visitar a casinha onde esteve, é claro que a R. também quis ir, e foram, e estiveram montes de tempo e no fim foi difícil convence-los que não podiam trazer para mana aquela menina linda que lá estava e não tinha pais.

 

Entre os 5 e os 6 anos, a R. meteu na cabeça que queria uma irmã, mas não era um bebé, era uma irmã grande para poder brincar com ela sem as implicações do mano.....íamos à casinha ........

 

Isto passou a ser tão natural que o facto de ser adoptado desapareceu completamente, e ainda bem, porque há problemas bem mais difíceis de lidar, como a cor da pele, o racismo,  etc.

 

A minha opinião pessoal, é que o assunto deve ser tratado como algo natural, devemos conseguir mostrar à criança que a adopção é algo normal e que ela é amada da mesma forma, e deve ser algo que cresça com ela. Entendo que quanto mais tarde isto for contado, mais complicado irá ser.

 

Há uns tempos li o livro "Yo soy adoptado", é um livro escrito na Espanha  com 11 histórias de adopção contadas pelos adoptados, em 11, 9 mais tarde ou mais cedo quiseram conhecer os pais biológicos, a curiosidade faz parte de sermos humanos, e acho que é natural que alguém que foi adoptado queira conhecer as suas origens, mesmo que depois sinta que não faz parte daquela historia e não mantenha contactos.

 

Só mais um detalhe, não é possível esconder para sempre o facto de uma criança ser adoptada, na certidão de nascimento que é necessária para o casamento é obrigatório que venha o nome dos pais biológicos, isto para evitar casamentos consanguíneos....

 

Bom, já sabe, quer um filho, vá à casinha, nada de cegonhas nem de Paris ... R. Dixit.

 

JorgeSoares
publicado por Jorge Soares às 19:31
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7 comentários:
De Mia a 20 de Junho de 2008 às 21:20
Concordo em pleno contigo. As crianças devem saber desde sempre a sua verdadeira história, ajuda-as a encarar com mais naturalidade, do que esta verdade lhe seja ocultada.

Agora, Jorge, uma das ultimas afirmações "na certidão de nascimento que é necessária para o casamento é obrigatório que venha o nome dos pais biológicos..." que fizeste, aguçou-me a curiosidade. Deixo-te aqui algumas perguntas resultantes da minha curiosidade.

- o nome dos pais biologico é aquele k aparece no BI? - se for o caso acho mal, não acho muito sensato para os pais adoptivos... que para mim são os verdadeiros pais.

- se os filhos têm acesso ao nome dos pais biogicos, os pais biologicos tambem têm acesso ao nome de quem adoptou os seus filhos? - se for o caso tb n acho muito justo que assim seja.

- o vinculo do nome dos progenitores, só se aplica em casos de matriminio... a titulo informativo, ou tambem se aplica a nivel legal.

hum... e vou-me calar, senão ainda me expulsas do teu recem cantinho! LOL Jorge, se por algum motivo achares que estou a ser indiscreta, por favor desculpa-me e nem sequer publiques o comentário.
bjokinhas
De Jorge Soares a 20 de Junho de 2008 às 23:12
Olá Mia

Preguntas pertinentes, e que vão de encontro ao que espero deste blog...

Quanto à primeira pregunta, quando é decretada a adopção plena, a criança adquire os apelidos dos pais adoptivos, e são esses apelidos que aparecem em toda a documentação. O que já não é verdade para o nome, só em casos muitos especificos é que é permitido que se altere o nome da criança.

Os filhos só tem acesso á informação sobre os pais biológicos no caso especifico que referi, na certidão de nascimento que se destina ao casamento, em todos os outros casos o que aparece são os dados dos pais adoptivos.. a menos claro está que os pais adoptivos a tenham e a queiram partilhar com os filhos.

Não tenho a certeza da resposta à tua ultima pregunta, mas pelo que entendo, a informação só aparece na certidão destinada ao casamento para evitar casamentos consanguineos, em todos os outros os casos a informação não pode ser mostrada.

Mia, aparece sempre...e coloca todas as questões que entenderes... um dos objectivos deste blog é mesmo esse, facilitar o acesso à informação... gostei das tuas questões.

Jorge
De Anjos a 23 de Junho de 2008 às 11:23
Quando me casei não pude ter acesso à minha Certidão de Nascimento original, já que nessa é que são feitos os assentos de toda a minha vida, a Conservatória recebeu-a e ficou com ela. Para todos os outros efeitos, como por exemplo o BI, é-me passada uma Certidão Narrativa de Nascimento onde só aparecem os nome dos meus pais adoptivos, já que eu tive uma adopção plena. Ou seja se alguém adoptado ou alguém da família de criança adoptada quiser ter acesso à certidão de nascimento não o pode fazer, nem tem acesso ao processo do Tribunal, para salvaguarda dos interesses do menor e respectiva família adoptiva.
De AngKorVat a 21 de Junho de 2008 às 22:16
Olá Jorge,
Fiquei muito emocionada com este post. Está muito bem visto. Concordo em absoluto com a sua visão. Acho que não há justificação para que se esconda a verdadeira identidade da criança.
Este é um assunto que aflige pelos moldes em que tem vindo a ser praticado em Portugal: há imensas crianças à espera e imensos pais com vontade de lhes dar colo, mas que a burocracia teima em não facilitar.
Cumprimentos.
De AngKorVat a 21 de Junho de 2008 às 22:18
Reparei que é um blog novo. Parabéns... Bom tema. E parabéns tambem pelo jeito ;)
De Jorge Soares a 22 de Junho de 2008 às 13:09
Olá

Obrigado pelos teus comentários..e volta sempre.

Jorge
De carol a 17 de Dezembro de 2010 às 16:22
oi gente onde essa coisas lindas morra eu vou fazer minha festa de 15 anos e as criacas vai difila de fatasias e eu gosteii mt mt delas ?????

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