Segunda-feira, 23 de Junho de 2008

A minha História

"A propósito do Natal, nesta data recordo-me sempre o dia em que fiquei a saber que os meus pais, não eram os meus "pais de sangue".

Devia ter por volta de uns 6 anos, assistia com a minha mãe a um programa sobre o nascimento de Jesus. A certa altura dizia-se que Jesus era filho adoptivo de José. Eu viro-me para a minha mãe e pergunto-lhe: "o que é filho adoptivo?", e a minha mãe friamente diz-me: "olha, tu por exemplo, és filha adoptiva, não saíste da barriga da mãe, a mãe foi-te buscar a uma casa aonde estavam muitas crianças abandonadas".

Imaginam a minha cara, não? O mundo caiu sobre mim. A partir desse dia nunca mais vi a minha mãe com os mesmos olhos. Sei que esse dia foi determinante para a nossa relação até hoje.

Sim, fui adoptada com 4 anos, não tenho recordações algumas para trás dessa idade, por isso a minha surpresa quando esta "novidade" me foi anunciada. Fiquei triste muito triste mas a primeira pergunta que fiz foi: "tenho irmãos?", "tens um irmão", foi a resposta que me foi dada. Mas afinal tinha 4 e dois bem perto de mim e eu sem nada saber...

Após muitas tentativas e de muitas buscas aos 16 anos descobri os meus irmãos Paulo e Odete que afinal vivam tão perto de mim. Hoje a minha irmã é a minha melhor amiga e o meu irmão, bem, temos uma relação de altos e baixos, muito por culpa da mulher dele e do nosso feitio igual, mas amo-o muito.

Continuo sem perceber, porque perdoar perdoei há muito tempo, porque é que a minha mãe biológica nos abandonou. Conheço-a e não gosto dela, aliás não gostar não é bem o termo, não tenho sentimento algum por ela, é como uma pessoa qualquer e sinto é recíproco...

A minha mãe adoptiva, bem... aos 18 anos saí de casa por não aguentar mais. Hoje temos uma relação, como nunca tivemos. Melhorou muito depois do nascimento do meu filho mais velho, era ela que ficava com ele até ter entrado na escola aos 4 anos. Tenho pena, alguma dor mesmo, por saber que as coisas podia ter sido diferentes se ela não tivesse uma obsessão tão grande por mim, era amor demais, daquele que nos sufoca e não nos deixa viver... Fez de mim a mulher que hoje sou, incutiu-me bons valores, que me impediram de ir pelos maus caminhos, apesar de todas as minhas cabeçadas desde os 18 anos até hoje, penso que sempre tentei e acho que consegui, manter-me digna. E hoje com 2 filhos vejo algumas coisas de maneira diferente, mas o que vivi com ela ensinou-me que tenho que deixá-los fazer as suas escolhas, não deixando de dar os meus conselhos e estar sempre com os braços estendidos quando precisam de mim, que é exactamente o oposto do que fizeram comigo.

Adoptar uma criança e fazer dela a sua filha é um grande acto amor, talvez o maior de todos e no fundo agradeço à minha mãe de coração tudo o que fez por mim e por ter feito de mim uma Mulher!"

 

Escrito aqui em 25-01-2008

 

publicado por Anjos às 11:18
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11 comentários:
De era1xeu a 23 de Junho de 2008 às 16:30
Concordo contigo e tu bem o sabes na 1ª pessoa, adoptar é um acto de amor. E eu aguardo ansiosamente por o poder fazer, para poder aumentar a minha familia e fazer mais uma criança feliz.

Uma beijinho pela coragem de contares a tua história

Maria Pereira
De Anjos a 23 de Junho de 2008 às 18:34
E um grande beijo para ti por teres a coragem de adoptares uma criança
De Elsa a 1 de Julho de 2008 às 15:40
Eu fui adoptada aos 11 meses e não me lembro da minha mae me ter contado porque eu sempre o soube.
Os meus pais numca me esconderam nada e mantiveram sempre uma relação proxima com os meus pais biologicos. Cresci como se de algo normal se tratasse e dou-me bem com os meus pais e irmaos biologicos.
Amo os pais que me criaram e fizeram de mim mulher, eles são os meus pais.
Por isso penso que não se deve esconder nada das crianças, nem esperar pelo momento H, se tudo for feito com naturalidade, não há ressentimentos nem traumas.
De Anjos a 1 de Julho de 2008 às 18:26
Os meus ressentimentos e "traumas" têm outra origem, mas isso dava mais um capítulo da minha história sobre o qual não me "apetece" falar...
De Maria João a 31 de Julho de 2008 às 11:11
Desculpa perguntar, quantos anos tens?
Como é que foi sendo gerida a relação entre os teus pais e os teus pais biológicos?
Como é que te sentiste ao longo dos tempos nessa relação? Dividida? Em paz e à vontade?
Quem eram as tuas referências enquanto pais?

Desculpa estar a colocar estas questões e se não quiseres não respondas, percebo perfeitamente.

Como não é habitual essa ligação entre pais e pais biológicos, tenho curiosidade de saber como se desenrola uma situação assim.

Maria João
De Anjos a 31 de Julho de 2008 às 15:22
Ai mulher, tantas perguntas!!!! Tenho 34 anos e fui adoptada aos 4. Nunca tive relação nenhuma com os meus pais biológicos. As minhas referências como pais sempre foram os meus pais adoptivos...
De Maria João a 31 de Julho de 2008 às 16:06
Desculpa as minhas perguntas. Não queria ser chata.
Perguntei, porque achei interessante essa ligação entre os teus pais biológicos e pais adoptivos e tive curiosidade em saber como gerias a situação.

Eu tenho um respeito e consideração enormes pelos pais biológicos das minhas filhas. Graças a eles sou mãe das minhas filhas.

Desculpa as perguntas.
Maria João
De Anjos a 31 de Julho de 2008 às 17:41
Mas os meus pais biológicos nunca tiveram nenhum tipo de relação com os meus pais adoptivos, nem nunca sequer se conheceram... Há algo que me escapa...
De Anjos a 31 de Julho de 2008 às 17:41
Se calhar estavas a falar com a Elsa e não comigo
De maria joão a 31 de Julho de 2008 às 21:47
Que confusão!!!!!!
Peço desculpa. Claro que era à Elsa que queria colocar as questões. Mais uma vez as minhas desculpas pela confusão.

Maria João
De Elsa a 7 de Agosto de 2008 às 13:07
em primeiro desculpa ter repondido tão tarde.
Eu tenho 28 anos.
O meu pai biológico é primo afastado da minha mãe adoptiva.
Os meus pais de sangue já tinham 4 filhos e estavam à espera de mais um.
A minha mãe tinha sido "corrida" de casa pelos pais quando engravidou a primeira vez, não tinham nada, não tinham onde viver.
Quem os ajudou muito foram os meus pais adoptivos que andaram por todo lado a pedir ajudas, material de construção, para construirem a casa que tem hoje.
Eram portanto já muito amigos.
Quando a minha mãe foi para o hospital para ter o 5º filho, a miha mae biologica com intenção de ajudar mais uma vez prontificou-se a levar uma de nós por uma semana para casa dela.
Como eu era a mais pequena, lá fui.
Mas em uma semana os meus pais apegaram-se a mim e eu a eles. Estava mais gordinha e já não queria os meus pais (tinha 11 meses).
e assim decidiu-se que eu ia ficar com eles.
Como todos os fins de semana iamos visitar os meus pais biologicos, eu cresci a saber do que se tinha passado.
Sempre estive em paz com a minha condição.
E logico para mim os meus pais foram quem me criou, mas conheço os meus pais biologicos e dou-me bem com eles e com os meus irmãos.
Apesar de numca ter estado adoptada legalmente, pois quando os meus pais se lembraram disso, já não os deixaram por ter mais de 50 anos. Estupidez, visto que eu já estava com eles desde os 11 meses.

E é basicamente isto, mais alguma pergunta estou ao dispor.

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